Testemunho de um adepto

 

Compreendi seus olhos mortos aquela manhã. Era uma santa disfarçada. E santos são assim, tem os olhos mortos porque na verdade não são vivos como nós.

Compreendi também como lidar com ela. Eu não devia nunca dizer o que ela deveria fazer, apenas deixar que seus movimentos lentos das mãos dessem a direção.

Confesso que tive imensa dificuldade na realização dessa tarefa. Porque eu sendo homem jamais poderia ser dirigido por uma mulher. Isso não era concebível. Aprendi que com ela eu teria de agir de outra maneira.

Sentamos as cinco da tarde num café maravilhoso na praça mais bela da cidade. Seu rosto era de um pálido glacial, uma maravilha de se ver. Quis agarrar suas mãozinhas frescas com minhas garras riscadas e rudes, mas não o fiz.

Respeita-la era uma obrigação. Quando percebi que somente a via porque era um venerável, quis mais, quis obtê-la inteiramente para mim.

Esse meu erro me fez passar duas eternidades no inferno. Amando-a assim, sem nunca possuir minha, criei o mais vis dos sentimentos – o egoísmo. Detive-me por um tempo procurando suicidar-me inúmeras vezes. Consegui que meu corpo se tornasse um punhado de excremento que ninguém queria limpar.

Sentados as cinco da tarde naquele café. Procurei fechar meus olhos mesmo mantendo-os abertos e não pensar em nada. Ela me olhava com dignidade, mas sempre os olhos mortos. Eu tentei não pensar em nada, mas pensei. Ela não sorriu.

Esperando ansiosamente algum fruto de sua boca pequena e meiga, tilintava os dedos na pequena mesa rotunda. Uma brisa sussurrava que nunca havia batido naquela terra e fez com que os cabelos de um castanho estelar sobrevoassem sobre os ombros. Diante disso ela baixou os olhos em direção à chávena de chá.

Trouxe algum medo dentro de mim a sua distância. A perderia novamente?

 

 

By crazy spirit




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