“A man in a baby blue jacket with a black tie…”

 

A formiga não sabe, mas ela vai ser esmagada. O pé ligado à perna caminha em direção à esquina. Os músculos impávidos no rosto chupado. A cor marrom. Os olhos negros de um profundo umbral de vivências. Esmaga o pequenino inseto deixando uma patinha incólume. De que servirá aquela pequena pata que ficou perfeita diante do corpo estraçalhado que mal fará falta ao formigueiro?

O corpo minguado vestido com uma certa classe. Veste o blazer azul bebê que não comprou, mas ganhou há cinco anos. Veio embrulhado numa caixa de papelão verde musgo. Uma fita vermelha fazia duas voltas em todas as direções. Um cartão com um impresso de Netuno – o oitavo planeta em ordem de afastamento do Sol.  Naquela ocasião ele sentou-se diante do pacote. Fechou os olhos em atitude meditativa. Quando abriu os olhos o pacote ainda estava lá. Levou os lábios até o narguile, deu três tragadas exatas. Ficou com o sabor acre na boca pelo tempo em que desenlaçava a fita rubra. Vagaroso e astuto como o mais vigilante dos animais. Apesar disso, mantinha o olhar meigo, as pálpebras caídas e um profundo sentimento de paz dentro do coração.

Retirou a tampa e vislumbrou o blazer de corte perfeito. A cor o fez relembrar o passado. O baleiro que fazia venda nos arredores de sua aldeia quando criança. Ele usava algo muito parecido. Sentiu a boca encher-se de saliva, as papilas gustativas agora eram todas doces. Doces tempos os que faziam da correria, do fuzuê e das molecagens os únicos motivos da vida. Fechou o pacote e deitou a cabeça no sofá enquanto uma das vistas virava-se para a janela e aquela parca luz do sol invadia as pupilas.

Uma gravata preta por sobre a camisa branca. O homem continuava o seu caminho em passos lentos e espaçados. Perfeitamente sincronizados com o horário, com o barulho dos carros, com o chiar das formigas, o vôo dos pássaros e o tilintar da pulseira falsa no punho, presente de sua avó.

Os olhos como os de uma águia tinham a visão plena. Parou em frente a uma lanchonete. Checou o horário do relógio, manteve-se paciente e olhou para os lados de forma involuntária.

Entrou no estabelecimento que estava cheio de crianças e adolescentes – todos da escola municipal da cidade. Sentou-se em uma mesa de dois lugares. Os bancos de cimento, uma decoração moderna em tons amarelados. A algazarra no local era muito grande. Os pequenos acabavam de sair do colégio e ali era o ponto de encontro em que os sonhos e as coisas mais importantes eram discutidas.

Demorou a ser atendido. Observou todos os garotos e garotas, um por um. Abriu um sorriso no rosto que chegou a iluminar o pequeno universo local em que estava sentado. Algumas crianças brincavam coisas de criança, antigas brincadeiras como ele fazia com a irmã, Amélie.

Uma moça de dentes muito bonitos se aproximou depositando por sobre a mesa o cardápio. Ele o afastou e pediu por uma garrafa d’água. Ela anotou o pedido. Retirou-se em direção ao balcão e ele fez o mesmo. Vagarosamente.

Em Londres, às vinte horas, num plantão de notícias a Senhora Desirré enquanto penteava os pelos macios da gata, Pandora, sentia-se um pouco perplexa com o que escutava: “atentado em uma lanchonete de Kazkva mata mais de cinqüenta adolescentes e crianças”. Desirré desliga o aparelho, desce pelo elevador do prédio, chama o táxi para visitar Amélie e sua neta tão querida, Majorie.

 




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