Anticotidiano

 

Algumas coisas não acontecem todo dia. Assim, quando acontecem, são acompanhadas de uma mística, mesmo que não passe de pura invenção da mente humana, ou não; explico: não é incoerência, é o bom e velho antagonismo das coisas, Deus nos livre do pensamento único que emburrece.

Todo dia eu acordo na mesma hora, minha mãe é meu despertador. Faço as mesmas coisas até a hora de sentar-me no carro e conduzi-lo até o trabalho. Paro no semáforo. Normal, como todos os dias. Mas, como é importante viver, vejam: hoje não foi um dia normal.

 

O que vou contar durou no máximo uns vinte segundos. O que demonstra como a importância do tempo é relativa. Não se atribui mais ou menos valor pela duração, mas sim, pela intensidade.

Não sei se isso é privilégio das cidades do interior, eu creio que não. E creio nisso pelo fato de que alguns acontecimentos são gratificações da natureza para conosco – todos podem receber.

Um pássaro raro, multicolorido: azul, amarelo, preto e vermelho (existiriam outras cores?) pousou por sobre o capô do carro. Levei meus olhos até aquele pequeno ser de intensa beleza. O pequenino perambulou por sobre a lataria em direção ao espelho retrovisor. Interessado talvez pela luminosidade da tinta metálica verde escura. Será que pensava estar explorando uma mata virgem? O que levou aquela ave até ali? Diante da minha vista maravilhada, privilegiada por enxergar a perfeição de Deus naquele pequeno formato, tive o coração contraído. Minha boca abriu-se deveras: boca aberta.

O pequeno pousou os pezinhos por sobre o retrovisor, girou a cabeça para a direita, depois esquerda e então, pasma fiquei, pousou por sobre a base do vidro que se encontrava fechado. Queria entrar! Ele queria entrar? Eu não acredito nisso, justamente porque as aves são ariscas, ainda mais essas difíceis de se ver cotidianamente. Aquela pequena ave batia o biquinho no vidro, afinal, não ensinaram a ela que os vidros são intransponíveis, ficou tão perplexa quanto eu.

O belo é uma dádiva dos céus, a natureza se encarrega de nos sensibilizar com suas particularidades artísticas. Levei vagarosamente o braço esquerdo para baixo. Tinha a intenção de apertar o botão e abrir o vidro para que pudesse ficar mais a vontade com o pequenino. Que nada, meu privilégio acabara por ali. O pássaro voou rapidamente e não pude acompanhar seu destinatário. Nem mesmo sei se houve um. Ainda me pergunto se vivi uma cena real. O sinal verde me fez seguir em frente, alguns quilômetros boquiaberta e extremamente feliz.

 

 

 

A menininha no ônibus

Sentada no ônibus pensava.

Será que todos se sentem tão estranhos quanto eu?

Sei lá, se Deus é perfeito deve saber o que está fazendo, mas parece que não caibo direito dentro do corpo que ele escolheu para mim.

Deve ser por isso o desconforto.

 

Não bastasse eu, ainda as sensações fisiológicas.

Não bastassem as sensações fisiológicas, o frio e o calor.

Não bastasse isso, eu inventaria alguma coisa que não bastasse.

Pois minha essência é criticar o que não faço e o que nunca farei.

A essência que possuímos é detestar tudo que não nos cabe.

 

Esse ônibus cheira gente.

Tem muita gente por aqui.

Como a gente é banal.

Existem tantas.

Será que só o dinheiro as diferencia?

 

Não sei.

Algumas pessoas são mais agradáveis que as outras.

Porque será isso? A robótica humana por puro capricho divino?

As vezes me pego sentindo nojo dessa lógica imbecil que as pessoas insistem em não perceber.

Crêem no Darwinismo, mas não acreditam em outras vidas.

Quanta burrice, eu penso.

 

Tem coisas que são tão óbvias para mim.

Tem coisas que só para mim parecem ter sido escritas.

Tem coisas que me fazem ver o quanto sou superior.

Tem coisas que eu falo que realmente demonstram a minha estupidez.

Eu odeio mesmo é essa coisa de literatura poética, dos filósofos ateus, das teorias materialistas, dos ateus em geral, dos fanáticos religiosos, dos estúpidos e das enfermarias repletas de doentes que são justamente aquelas que se situam fora dos hospitais.

 

 




[ ver mensagens anteriores ]