Laranjas
O sentido da vida, the meaning of life, Raca !
Porque tem que haver um sentido para seguir se todos os sentidos acabam não fazendo sentido algum? É tudo suposição. Como vou acreditar com todas as minhas forças na ciência se depois de um tempo o comprovado até pode vir a ser desaprovado?
Afinal, a ciência não falha?
Vou ficar sentado aqui nesse banco bem ao meio. Nem muito à esquerda e nem muito à direita. Tomar posições na vida é burrice. Pois com que certeza podemos nos apoiar em nossas certezas? Será que ninguém percebe que o sentido das coisas é efêmero e dispersivo como o pó? Será que somente eu consigo ser equilibrado e perspicaz o suficiente que perceba a inconsistência de nossas certezas?
Certa vez, um “mestre” disse que meu absenteísmo ideológico era preguiça de pensar. Falei “Raca!” Quem pode me dizer o que é e o que não é? Quem nesse mundo?
Sempre odiei os mágicos. São apenas tristes ilusionistas, seres que querem nos iludir com uma capacidade de manipular objetos e fazer aparecer coisas que já existiam, mas estavam muito bem escondidas. Até que se prove o contrário todos os detentores de opiniões certas são como os mágicos. Seres imbecis de cartola tentando tirar coelhos de onde coelhos não nascem. Porque não tiram então um filhote de cartola do ventre da mãe cartola? Fica explícita a inconsistência desses atores medíocres.
A única certeza que existe para um sentido na vida é a existência de Deus. Esse aí está na cara que existe. E como é longa a fila dos abrutalhados que nele não acreditam. Existe alguma coisa no mundo mais evidente do que a existência de Deus? Mostre-me. A laranja, essa aí sobre a mesa. Tem consistência, gosto, cheiro. Mas num segundo eu a engulo e pronto, ela não existe mais e talvez nunca tenha existido. Foi só uma criação da minha mente para poder saciar minha fome. A laranja não tem vida em si mesma. Não existe. Não me importam as laranjas.
Deus sim. Esse sim. Eu não vejo, eu não cheiro, não sinto, não toco. Mas é tão claro que existe que todos os dias ele me da provas disso. E eu não tenho como provar aos outros disso. Apenas eu tenho visto Deus por séculos e séculos. Ele fala comigo todos os dias. Raca! Tolos os que riem de mim achando que sou um doido que acredito em Deus, mas não creio nas laranjas! Raca! É evidente. Deus é algo que não se pode tocar, nem sentir, nem ver e a laranja é justamente o contrário. Porque vou acreditar nela que nada me faz pensar? Deus me faz pensar, e enquanto eu estiver apto a pensar em Deus ele vai existir. A laranja? Em dois minutos deixa de existir como laranja e vira suco alimentar.
Raca! O Sentido da vida. Não tem sentido nenhum. A vida é uma glória sem sentido e Deus está no meio disso tudo! Ah! Inconsistentes que acreditam em laranjas! Deus tenha piedade de vós!
Quarta-feira: esperando no trabalho
As palmeiras ao vento chiavam. Num movimento mole, lânguido, assim preguiçoso surgiam majestosas suas folhas, diante de sua autoridade outorgada pela altura, de perder de vista. Tudo isso por causa do vento o qual teimou em cessar assim que passei a observá-las com atenção. Tornaram-se quietas e então passaram a me observar, pois agora era eu quem me mexia. Sentia-me incomodada com as dores lombares de horas sentadas na poltrona do carro esperando que o serviço terminasse.
Esperar a vez não é tarefa aprazível para quem padece de ansiedade. Ao menos, vítima não era dos anseolíticos. Apesar de minha estúpida maneira de agir priorizando o futuro eu ainda conseguia manter-me sã. Remédios no meu estilo de vida provinham quase todos da natureza.
A espera interminável fazia o piar dos pássaros mais interessante. O que estariam eles falando? Devido à ênfase nos repiques e trilados no pio do pintassilgo, supus que falava com eloqüência querendo expressar indignação ou talvez inteligência. Como não havia revide bem poderia ser um monólogo de um pássaro louco. Como também poderiam ser as últimas palavras proferidas pelo pássaro carrasco diante de um pequeno bicudo que calado assentia em sua sentença.
Ah... As divagações a que nos levam o ócio... Um ócio involuntário, era preciso esperar a vez, mas – um ócio.
Procurei concentrar-me em um algo mais. Escolhi vespas. Estava próxima de uma coroa de cristo florida repleta delas e moscas, abelhas por entre outros insetos comuns. Beijavam as miúdas flores vermelhas na boca. Depois saiam muito extasiadinhas e logo caíam em um outro beijo, não muito demorado. Sumiram rápido dali, insetos volúveis com seus beijos melados de pólen. Ficaram as minúsculas flores vermelhas estáticas, já beijadas, enfeitando o jardim frontal da casa.
pelo desvio de septo. Apitava pelo nariz como uma pequena locomotiva imaginária. Achei bobo tudo aquilo. Já era menina grande. Será que ainda era tempo de produzir pequenos silvos nasais e divertir-se com isso?
Meu aniversário estava chegando. O tempo, o tempo na ampulheta. Quanto mais de areia será que havia na ampulheta? Achei melhor não comentar.
Passei a pensar no inferno astral que dizem preceder o aniversário. Quem inventou tal história? Os dias são os mesmos o ano todo. É tudo sempre igual.Acho que a mente inventa as coisas. Inventei que não queria inferno astral e pronto. Se pudessem me ofertar livros eu agradeceria.
Uma borboleta amarela... duas borboletas amarelas (agora, eu observava borboletas amarelas). Tão parecidas, acho que eram borboletas gêmeas. Quis nomeá-las. Brindá-las com um pouco de civilidade e individualizá-las com nomes de batismo: mas seriam fêmeas ou machos? Procurei pensar em algo unissex. Não encontrei nome bom para elas. Também já haviam sumido. Borboletas... tão volúveis quanto as vespas. Saem beijando tudo feito insanas num desvario desmedido. Deixe elas. Que eu não tenho asas e fico aqui. Consumindo meu ar, parada, sentada, dentro de um automóvel de quinta, na quarta.
Para terminar a infinda espera, o acaso me brinda com a singela cena. Em frente a uma casa de drinks, essas casas... casas de massagem, creio que o leitor me compreenderá. Parados, um jovem casal. Uma cadelinha e um pequeno macho tentam encaixar-se, inspirados talvez pela fachada da boate, querendo participar da sociedade humana. Tentaram, mas, a natureza díspar das criaturinhas não permitiu completasse a situação. Largaram-se como se nada houvesse acontecido, como se não tivessem compromisso algum. Espera aí, estariam os caninos transformando-se em seres humanos?
Parei de pensar, o carro saiu em disparada.