Absenteísmo
O chefe abrutalhado chega na repartição. Diante de seu á-bê-cê abusado constata com abalo que o absenteísmo na seção é deveras abundante.
Abundava o abandono do serviço. Abrangia o absurdo! Um abuso!
No auge de seu absolutismo contraiu o abdômen como efeito abrasivo para a sua raiva absorta. Nunca dera aquela abertura! Sempre fora bom, abonado. E como lhe respondiam? Com aquela aberração! Abjurou os funcionários! Precisou abanar-se. Pensar como um abade abnegado cultivando um abacateiro...
Abiscoitou um abricó na mesa do Abílio... Pensou. Iria mandar todos aqueles abobalhados para o abate! Sim! Era o que faria. Abismado, abarrotava alguns bilhetes. Absteve-se de absolver. “Aqueles aborígines!” proferiu.
Um funcionário abelhudo viu tudo e ficou abatido com o abissal aborrecimento do chefe e preferiu abdicar daquele trabalho. Os outros abarcaram no aboio. Abraçaram a causa.
O ambiente ficou abiótico. Aborrecido. Abafadiço. Abreviaram aquele dia abrupto e foram atrás de um abrigo abastecido de muito absinto para diminuir o abalo.
Devaneios de Senhor Ringo
A teoria do senhor Ringo era a de que um povo se conhece pela boca. A qualidade dos dentes é uma tabela. O hálito, as gengivas, a língua. O que sai, o que entra. O que o povo come ou deixa de comer. O que o povo fala ou deixa de falar. Está tudo lá. Na parte inferior do nariz e superior do queixo; a boca.
Aliás, senhor Ringo estendia a sua teoria à toda humanidade. Certa vez, ousou imaginar um mundo sem bocas. Não haveriam mais discursos populistas, bate-bocas, não mais se discutiria relacionamento e seria o fim das piadas sem graça. Ninguém mais padeceria por intoxicação alimentar, seria o fim da bebedeira.
Foi quando, senhor Ringo imaginou que seria o fim do beijo na boca. Vacilou. Como faria para demonstrar sua paixão incontida por Rosa Maria? Não, não. Definitivamente um mundo sem bocas seria inviável.
Então imaginou infindáveis passeatas pró-bocas. Cartazes e faixas “Pelo direito de vociferar!” ou “Quem tem boca vai a Roma!”. Surgiram movimentos como o MPB (movimento pró-boca) e o extremista MSB (movimento dos sem boca). Talvez o único efeito positivo encontrado nesse tipo de manifestação fosse o silêncio e uma certa ordem. Ouviria-se um zumzumzum e o arrastar de sapatos. Muito civilizado, pensou.