Fernando, eu, o beagle e a natureza.

 

 

Procurei afastar-me de Fernando por vinte dias. Mas, só consegui dez dias no emprego o que, descontado o final de semana, tornavam-se oito dias.

Trouxe comigo o pequeno beagle que ainda era um bebê, mas fazia uma sujeira de gente grande. Não quis mais ninguém. Eram somente eu, a casa, o beagle e a natureza resplandecente do lugar. Indizível, inenarrável e porque não me empapuçar com as palavras e soltar um incognoscível?

 

O ambiente perfeito para me desfazer da urucubaca que houvera sido meus dias ao lado do indigente humano - o Fernando.

 

No primeiro dia fez um Sol tão maravilhoso, que ao acordar bem cedo só para ter o prazer de fazer um café, num sítio, cedo e deleitar-me com a brisa fresca do alvorecer, soltei algumas parcas lágrimas de emoção. Achei até que estava, finalmente, me tornando uma mulher mais sensível ou porque não espiritualizada? Ao consultar o calendário atrás da porta da cozinha pude perceber que se tratava apenas de tensão pré-menstrual e que dali a uma semana eu estaria inchada, chata e dolorida. Merda - pensei.

 

No segundo dia peguei o beagle e fomos caçar borboletas. Perdi-me por entre os pastos correndo feito uma doida desvairada. A sensação era provavelmente a mesma que a das borboletas. Não fosse o buraco que fez meu pé torcer-se e ter meu corpo jogado a léguas de distância caindo como uma bomba no Japão, poderia mesmo ter sido uma caçada perfeita. O beagle me acompanhava sempre a uma distância mínima de quinze metros e a cada topada minha parecia ver em seu rostinho angelical uma repreensão do tipo “O que será que essa estúpida quer fazer?”

 

O terceiro dia praticamente inexistiu. A chuva torrencial forçou me ao ostracismo e fiquei a tarde toda limpando os coliformes fecais do pequeno animal. Fui limpar a casa, tive encontros e desilusões homéricas dentro daquele lar. A cada teia, a cada barata, a cada piolho de cobra, mais eu percebia que Fernando – de alguma forma – não queria deixar a minha vida.

 

O quarto dia deu uma animada. Fui jogar-me no lago. Na verdade eu havia saído para andar de caiaque até descobrir – no meio do lago – que alguma coisa estava vazando. Caí no lago, exímia nadadora (Graças a Deus) consegui chegar a outra margem depois de muita lama. Achei por bem pensar que havia saído da cama para me banhar no lago. Meu cabelo estava terrivelmente prejudicado e ainda assim achei que estava no lucro. Existe algo mais mimoso do que o contato com a natureza?

 

No quinto dia alguma coisa aconteceu, passei o dia inteiro amuada enquanto o beagle continuava ali, me olhando, “o que será que ela quer agora? Biscrock?”. Meu amigo beagle, a natureza, a casa um pouco mais limpa e ele lá. Fernando lá na minha cabeça. Comecei a preocupar-me com a urucubaca daquele safado. Será que pegava mesmo? Decidi que no sexto dia eu sairia pelo campo para colher ervas e fazer um banho “ante-encosto” para mim.

 

O sexto dia só não foi perfeito porque na noite anterior eu houvera sido vítima de um grilo. Um grilo fazendo uma sinfonia. Ele e uma cigarra esganiçada se uniram para tornar o barulho do silêncio algo raro e ensurdecedor. Não padeci. Fui forte, fui corajosa, acordei no sexto dia acabada, mas vencida, jamais. Passei então a procurar ervas pelo campo. Com um chapéu de palha, o cabelo preso, um vestido florido... Praticamente July Andrews e suas crianças... No meu caso, o meu beagle.

 

Sétimo dia, descansar? Passei-o inteirinho cuidando da desinteria do beagle e de preparar um chá forte contra vodu e congêneres. Peguei a foto do desalmado e coloquei lá no meio da panela. Parecia até um caldeirão. Empolgada resolvi imitar risada de bruxa, com o estrondo que causei na primeira levada o pobre do cão começou a latir assustadíssimo e escondeu-se num lugar que só fui descobrir no oitavo dia.

 

Oitavo dia, último dia. Limpo tudo – novamente – arrumo, para mostrar meu alto grau de civilidade. O beagle já está melhor, coloquei uma roupinha nele. Andei percebendo, sabe que ele está até parecendo comigo? Coitado...

Não me agüento e pego o celular na bolsa. Oito chamadas do Fernando! Safado...

Ligo o carro, e dirijo para a casa... Não sem antes fazer um pit stop no Fernando... Afinal, o beagle é dele.




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