PLEASE TAKE YOUR SIT BELTS.
Então, havia chegado o momento da partida. Para mim de nada adiantavam as lágrimas das pessoas que ficavam para trás. Havia cortado o meu cabelo curtinho e me matado várias vezes a cada fio de cabelo que ficava pelo chão. Talvez a mulher os transformasse numa peruca.
Fiquei com a idéia da peruca na cabeça até que meu pai avisou que tínhamos ainda trinta minutos de espera até a primeira chamada do vôo. Imaginei que quem viesse a utilizar a peruca com meus fios de cabelo poderia adquirir os meus “poderes”. Achei engraçado imaginar alguém se tornando eu mesma pela aquisição de fios de cabelo. “Seria bem interessante”.
Num processo desses eu poderia também ser um outro alguém por usar desse alguém um chumaço de seus cabelos. Winona Ryder, Uma Thurman, me imaginei na pele delas.
Minha mãe me observava triste por entre as cadeiras do aeroporto. É que meus pais já vislumbravam a minha ausência. Um pouco destemperada não me preocupei se poderia ter alguma crise existencial enquanto sozinha em um outro país. Na verdade nada mais importava. Eu já havia passado tanto tempo num marasmo indefinido que para mim, a morte, ou a esquizofrenia, seriam experiências muito proveitosas. Sem preconceitos.
Detive-me com meus próprios dedos. Olhava para eles como se agora fossem as únicas peças de mim mesma a estar comigo. Vinte dedos, dez nas mãos e dez nos pés. Mexia-os lentamente procurando acalmar a angustia da espera. Porque sempre odiei qualquer tipo de espera. E sempre soube que deveria refrear esses ódios. São prova de incompetência. E não gosto de ser incompetente. Estava me tornando por comodismo, por mimetismo, por inércia e por plasmose.
Ignorei mais uma vez as caras tristes. Tristeza não leva ninguém a lugar algum. Procurei sentir-me cidadã do mundo. Procurei sentir-me Jesus Cristo “Quem são meus pais? Quem são meus irmãos?” Meu pai nesse momento me trouxe um copo de água. Ficou ao meu lado, quieto. Senti que não poderia afastar-me deles assim, como se afastam os filhotes de cachorro de suas mães. Já havíamos crescido nas escalas evolutivas e eu devia sim, um afago àqueles dois.
Fiz qualquer coisa boba na hora da despedida. Eu, sempre boba. Dessa vez chorei fervorosamente. Danem-se os que estão nos olhando. Abracei os velhos. Joguei-me em seus pescoços. Beijei e beijei.
Quando subi no avião e sentei na minha cadeira estava transformada. Não havia mais a mesma pessoa. Eu resolvi que assim seria. Quando se resolve as coisas as coisas são resolvidas. Parece imbecil e é verdade. Tendo decidido isso eu deixei de me preocupar com a maré que estava alta, com a lua que subia cheia e com os cães que ladravam forte em algum lugar por aí.
Deitei minha cabeça na poltrona. Drogada. Drogada por mim mesma. Por meus próprios sentidos. Olhei bem para as comissárias de bordo, não parecia que elas tinham saudades de suas famílias que viviam a muitos quilômetros de distância. Meu cérebro se adaptou rapidamente ao meu novo sistema “fast independence” como haveria de ser um cérebro assim, tão refinado como o meu.
Fechei os olhos, fiquei na escuridão. Com meus sentidos, não vi quem sentada ao meu lado. Imaginei-me aparecendo de lugar algum naquele avião. Uma mulher, linda, nova, ali, de repente aparece num avião, nem sabe para onde está indo. Perguntei então à mulher que estava ao meu lado “para onde estamos indo?” Fiz isso num tom coloquial e ela me olhou espantada. Então, eu ri. Ela também. Foi interessante eu ter feito isso. Se fosse a outra jamais teria feito isso.
Fiz uma amiga ali. Minha primeira amiga. Era um pouco mais velha que eu. Conversamos sobre banalidades e o vôo decolou. Fui para os Estados Unidos e depois de lá eu nunca mais ouvi falar de mim.
Perturbação do Sossego Público
Ê. Mas chegara cansado demais em sua casa. Poderia dizer que até amuado. Porque o trabalho tornava-se deveras perturbador. O novo encarregado não era flor que se cheirasse, era o mais rude daqueles trinta anos.
O pior havia sido o desrespeito pelo qual passara. Passados os já citados trinta anos o que ainda lhe restava era o respeito dos companheiros - como honra.
O Furtado. Era esse o nome do encarregado. Havia lhe furtado alguma coisa naquele dia, a dignidade talvez. Todos brincavam com o nome do novo homem do trabalho. Era furtado de todas as virtudes. Era sim um rude, um desavergonhado que sabia muito bem como tirar um homem de bem do seu sério.
Chegou em casa. Morava sozinho, não vivia mais com a esposa. Outra pessoa que lhe fazia remoer por dentro. O único filho ficara com ela. Mal conseguia ver a criança por maldade da velhaca. Sentiu-se um derrotado. Ligou a televisão por um momento. No pior horário, refestelou-se no sofá em hora de noticiário.
Muitas denúncias de corrupção assolavam aquele horário nobre. Ele lembrou-se da dívida com o banco. Tentou não ser pessimista demais, porque sempre que o era, sentia uma dor forte no peito que o médico já dissera que não era nada bom.
Respirou por um momento. Lembrou que tinha cerveja no congelador e foi servir-se. Na cozinha o gato Félix, um gato cor de caramelo o observava pelo recuo da janela. Ele a abriu deixando que o bichano entrasse. Tentou uma aproximação, fazer um carinho. Sentia-se solitário. O gato reacendeu a sua carência.
Não obteve êxito, pois para o gato era hora de alimentar-se e dirigiu-se direto para a ração que ele deixava perto do balde que ficava ao lado do fogão. Voltou para a sala, sentou-se. Tirou os sapatos e procurou mudar de canal. Bebeu duas garrafas de cerveja naquela noite. Não era disso. Não era homem de beber. O álcool o deixou um pouco zonzo. Foi quando começou a ouvir um barulho descomunal.
Era a nova vizinhança que vinha lhe cumprimentar. O primeiro dia do funcionamento de uma igreja evangélica, denominação que se dava aos templos pentecostais.
Um estrondo seguido pelo disparar de palavras desconexas e frenéticas todas ligadas ao vocabulário da religião.
A televisão permanecia ligada e o barulho aumentava a cada entonação de voz do pastor. Os efeitos do álcool mais a visão do gato o deixaram um pouco perturbado. Naquela hora recebeu uma ligação da ex-esposa, interessante, pois ela nunca ligava.
Escutou por sete minutos a velhaca o cobrando pelos cuidados com a criança. Não disse uma palavra até que ela desligou o aparelho desferindo despautérios sem tamanho.
O barulho da igreja continuava. Ele deixou de lado os anos de equilíbrio que o mantinham numa linha de conduta bastante conveniente para a sociedade.
Levantou-se e foi até o banheiro. Tomou um banho rápido, foi ao quarto, vestiu-se.
Abriu o portão da casa modesta, porém sua. Dirigiu-se ao templo. O barulho era ensurdecedor. Nem no tempo que freqüentava forrós lembrara-se de ouvir alguma coisa assim tão desproporcional aos decibéis que os ouvidos podem suportar.
Sentou-se nas cadeiras da igreja em meio a uma multidão de fiéis que completavam o couro de palavras ditas nas alturas – numa histeria coletiva com a qual ele não compactuou em nenhum momento dentro do local.
O tumulto era tanto que ele nem ao menos teve a impressão, que sempre tinha quando fazia alguma coisa, que depois o remorso viria lhe assombrar de madrugada.
Levantou-se, caminhou lentamente e despercebido até o púlpito. Sacou da arma e deu três tiros na boca do pastor que então se calou.
Interessante, ele pensava na cadeia, depois do terceiro estalido toda a confusão calara-se. Não houve histeria diante do crime. Talvez ele tivesse feito mesmo, um grande benefício por toda aquela gente.