Bate com um pau na cabeça da arara, espanta os tucanos, atira na araponga e espera pelo vôo da águia – o vôo mais alto – isso que se espera da brava gente brasileira.
O meu país o Brasil. O país é um território de muitos quilômetros quadrados e por esse motivo nós temos muitas Croácias, Bélgicas e Bulgárias aqui dentro. Territórios dentro dessa vasta imensidão de solo. E viemos do colonialismo português. Um colonialismo meramente exploratório que não visava em momento algum o desenvolvimento da terra aqui encontrada. Terra de índios. Somos silvícolas - essa nossa raiz.
Os índios enquanto aqui viviam não éramos um país. O que existia era a mata, os deuses da natureza, as danças e a vasta cultura indígena. Um território habitado, não um território constituído. E vieram caravelas e matanças que deixaram sangue, que deixaram sacrifícios, que deixaram amores mamelucos...
E começava então a se escrever a história do imenso e bojudo país das araras, dos tucanos, das bananas e do café.
O Brasil Império. Escutamos falar do Império Inca, Persa, Império Romano. De repente a realidade nos comprova que o país já foi um Império! Imperadores de sangue lusitano. E de súditos. Pau Brasil – súditos de pau Brasil. Índios, negros escravos, brancos caucasianos. As três raças em uma – a raça brasileira. Só nos faltou a monarquia! Nos faltou um Rei! O Rei do Brasil! Posteriormente teríamos dois – Rei Pelé e Rei Roberto – mas isso; isso não vem ao caso.
E o dia do fico veio – a independência ou morte – a regência; a história engajava-se e não parava mais de ser escrita. Até a inviabilidade. O esgotamento. Cansamos de ser Império, não era interessante mais ao “país” manter essa constituição pomposa de ser Império.
Passamos a brincar de República. E inicia-se o poderio das forças armadas que estender-se-ia por muito e muito tempo. O primeiro foi Marechal e até que a dita que foi dura se instalasse estaríamos sob a égide da pena militar. Tomamos muito café, tomamos leite, compramos cadilacs e mascamos chicletes.
E tivemos grandes homens e homens muito pequenos. Homens pequenos que governavam faraonicamente. Mas os faraós já não comportavam mais o estado democrático. E o pequeno grande homem era alvo das mais reativas deserções e paixões.
As armas de fogo ajudam a escrever a História dos países. E na nossa história tupiniquim não foi diferente. Uma pequena arma oferece o desfecho a um longo período da Pátria Amada Brasil. E as vassouras, as carabinas levam então o país a um novo rumo.
Brasileiros e brasileiras vivem “a new Brazil” no exílio. Outros pegam a terra e dizem “é meu, eu mando”. Pobre estado democrático, perde-se um pouco... A linha é dura. As coisas não são fáceis.
Mas o bicho da democracia é imortal e todos seres humanos têm o direito de participar. Brasileiros e Brasileiras! E morosamente as coisas vão retornando ao velho eixo.Poucos presidentes do querido presidencialismo já foram eleitos pelo povo. E pouco também se fez com essa democracia que temos hoje.
Para combater o bem sempre há de existir um mal. Talvez não para sempre, mas por enquanto sempre. E o mal corroeu, corroe a moral, a dignidade, a paciência e o bolso do Brasil: o bacilos corruptus.
A população se irrita de alimentar tucanos e surge dessa birra uma maré vermelha que não consiste em sangue. Elege um partido político instituído e representado por um homem de Pernambuco – o estado da cultura popular e das praias estonteantes – o homem do pau de arara. E vieram as araras e foram os tucanos.
Uma verdadeira chuva de lama recai então sobre o país. As arapongas estridentes avisam. Não é a primeira vez que a lama escorre, fazendo perplexos até mesmo os silvícolas que não passam incólume a toda essa balburdia. Essa lama já vem escorrendo há muito pelas alvenarias do poder. Uma umidade que vai trincando as paredes. Porém agora ela deu de cair foi diretamente do céu. E todos brasileiros são atingidos por ela – esgotam-se – sufocam-se.
Lupicínio Rodrigues ao fundo nos serve de trilha sonora. Depois da chuva ainda haverá de haver tempo para limpar tudo o que ficará por debaixo da espessa massa podre que se sobreporá em nossas vidas. Que a chuva não dure tanto quanto em Macondo.
A história dinâmica da nossa República das Bananas não vai parar. Continua empurrando as dificuldades com a barriga de verme, de fome, de congestão. A história precisa de mais povo e menos governo. Atenção! Atenção! Mais Educação.
Um menino da favela senta-se por cima da pedra e está no ponto mais alto do morro. Ele já tem idade de pensar no seu país. Ele imagina que um dia todos os seus amigos negros e brancos da favela vão chegar da escola com livros embaixo do braço. E ao invés de fumarem maconha vão entregar-se ao vício da sabedoria. E ao invés de usar armas como divertimento vão estender o que sabem aos menores, vão brincar na rua, vão chafurdar nas teias da cultura. O menino da favela não sabe, mas não está sozinho. Como ele outros brasileiros possuem um sonho igual, idêntico, perfeitamente de acordo.
O menino já existe, os livro já existem, o país já existe. Que venham então os capacitados para manipular habilmente esse potencial brasileiro que sem sombra de dúvidas vai alçar vôo um dia. Um vôo mais alto do que as araras e os tucanos podem dar.
O momento que antecede a absolvição
O descalabro fora punido com procedimento comum. Contrariando totalmente o aspecto duvidoso que se formara – como sempre – contra o seu caráter, ele parecia dormir. Seus olhos fechados, apertados entre pálpebras davam a impressão de que sonhava. O globo ocular se mexia por baixo da pele e os cílios piscavam num movimento frenético que ele não conseguia conter. A boca mantinha-se seca como há semanas atrás. A barba já encobria todo o rosto de expressões másculas. Porém, não suava, não tremia. Estava contido dentro de seu corpo.
Ninguém podia ver, mas ele apertava por sobre a roupa azul – o macacão – o pedaço da madeira que lhe servia de assento. Não podemos dizer que se tratava de ansiedade. Essa era uma característica muito íntima que ele não deixava transpassar.
A sua frente ele sentia – pela sensibilidade que lhe era peculiar – os olhares perquiridores de todos. Seus carrascos, suas vítimas, seus amores e de curiosos que sempre aparecem. Eles, e sua vontade de saber daquilo que não lhes compete.
A autoridade do local proferia um discurso cansativo de análise e conclusão. Com uma entonação vocal pétrea, que a cada palavra lhe arremessava no rosto cem sacas de cimento, feriam os ouvidos que só não sangravam pela inconsistência física do verbo.
Quando as derradeiras palavras foram ditas, ficou visível em seu rosto que caiu sobre o peito, uma certa luminosidade percebida por todos que se encontravam dentro da sala.