Papai
Papai tinha as mãos grandes que cabiam dentro delas duas das minhas. E lá íamos nós em direção ao jardim que ficava perto de casa. Eu carregava de um lado meu pai e do outro segurava a minha pipa. Minha pipa tão querida. Podia ver as cores que translúcidas faziam uma sombra colorida no asfalto. O vermelho, o azul e aquela rabiola comprida que ia nos perseguindo até chegarmos no jardim.
Papai segurava firme na minha mão. Eu acho que ele não queria me perder. Assim como eu segurava firme na minha pipa para não perde-la também.
Sempre encontrávamos alguém no caminho. Então, papai me exibia para a pessoa – como se eu fosse um grande tesouro. Não sei porque, mas as vezes, as pessoas me faziam caretas e me olhavam feito bobas. Tinha uma mulher – uma mulher gorda de cabelos amarelos – que sempre apertava minhas bochechas. Teve uma vez que tentei me esquivar – papai ralhou comigo – mas é porque minhas bochechas doíam! Ela apertava muito forte.
Chegamos e papai logo me deu as instruções. Disse para que eu não me afastasse das limitações do bosque. Que eu não corresse. Que eu não falasse com estranhos. Papai falava muito dessas coisas, mas eu não ouvia quase nada do que ele dizia.
Eu não ouvia porque tinha um céu tão azul me chamando que meus olhos não conseguiam fixar os de papai. Eu não tinha culpa por aquilo.
Ele me ajudou, como sempre fazia, a dar distância para botar o papagaio no ar. Outras crianças também brincavam. Eu ficava feliz porque meu pai me ajudava – me sentia feliz.
Coloquei a pipa no ar. Ela nunca subia muito como a dos outros garotos maiores. Nesse dia ela subiu bastante. Eu olhava tanto para cima que ficava até com dor no meu pescoço.
De repente eu fiquei olhando muito para uma nuvem que vinha vindo. Rapidamente encobria o azul do céu. Quando percebi, minhas mãos estavam cheias de linha e não vi mais minha pipa!
Minha pipa estava enroscada em uma outra que havia cortado a minha linha.
Eu saí correndo com o meu peito doído. Gritando que era minha pipa, minha, minha, era minha! Um moleque me pegou pelo colarinho e quase me engasguei. Disse que eu era um bobo, que não sabia empinar pipa e por isso havia perdido. Debati o meu corpo até ele me soltar. Meu pai estava longe e não conseguia me ouvir.
Eu parei e fiquei olhando para o céu. Vendo minha pipa ir embora com o vento. Sendo levada por outra pipa, um papagaio verde. Eu senti muita tristeza, mas segurei para não chorar, os meninos iam rir de mim. Meu peito foi ficando apertado e senti uma dor estranha. Nunca havia sentido dor assim.
Corri para o colo de meu pai. Que me colocou prontamente sobre ele e enxugou minhas lágrimas secas. Eu não chorava, só mantinha um bico enorme.
Ele me falou que compraria outra, mas o que eu nunca esqueci foram as últimas palavras de meu pai: “Filho, você perdeu apenas uma pipa e eu posso comprar outra para você, aprenda que isso não é motivo para chorar” Você vai aprender ainda motivos para chorar”
Não sei porque até hoje eu me lembro dessa última frase de meu pai. Talvez seja porque eu esteja diante de seu corpo sem vida agora e nesse momento compreendendo a significância de suas palavras.
Juju comprou um carro usado modelo e ano 1999. A turma adorou o carro dela (lindo cacófato). Juntaram-se a ela então além dos três inseparáveis amigos – Julio, Sobrado e Aninha – as gloriosas amigas chupins – Maristela e Estela.
Agora que Juju tem motor, pode ir e vir e aproveitar-se desse seu direito constitucional mais do que antes, se sente feliz! Seu carro a faz feliz. Mesmo que ainda não tivesse percebido que o Estado e a seguradora vão fazer da vida dela um inferno com seus impostos e taxas infelizes.
Mas que nada, Juju não dá bola para essas coisas. Ela já é menina crescida que tem seu próprio pró-labore e é mais que merecida a sua aquisição capitalista.
No primeiro final de semana que se propõe a aproveitar junto de seu novo patrimônio sente que o telefone toca mais do que as três vezes habituais: são Estela e Maristela, procurando – delicadamente – por carona.
Claro que sim. Porque não dar carona? Mesmo que essas duas meninas mal falassem com Juju durante todo o tempo em que as pernas foram os únicos veículos que possuía, haveria algum problema?
Não foi apenas um – Juju contara sete finais de semana em que lá estavam Estela e Maristela com suas chapinhas insistentes no cabelo e suas bolsinhas Louis Vuitton e sapatinhos de salto fininho.
Quando caiu em si, quando se deparou com a triste realidade – Juju era um pouco lerdinha – a triste realidade de que aquelas meninas, aquelas meninas que compravam perfume importado no crediário estavam ali somente pela oportunidade de chegar nas festas num carro bacana – o carro de Juju – ela deteve-se. Fez os trejeitos que sempre faz com a boca e o olhar vago além do horizonte: “Mas elas me pagam”.
Veja bem, sóbrio leitor. Seria lícita a vingança? E que história é essa de que ela é um prato que se come frio? Se esperar muito o coração amolece. E Juju esperou foi tão somente pelo próximo final de semana e nem um dia a mais.
Rotor – o padrinho disse que sem o rotor o carro não pega. Foram para uma rave numa cidade de nome esquisito em Minas Gerais e Juju mais Pedróca desapareceram no meio da festa, eles e o tal rotor. A chave do carro ficara com as duas “amigas” que tentaram desesperadamente dar a partida por cerca de horas. Na chuva, no meio do nada, sozinhas.
Juju vendeu o carro na semana seguinte. Comprou uma moto. Cabe menos gente.
A concupiscência de dona Loló
Um apartamentinho apertado entre dois predinhos antigos do centro da cidade. Um desses imóveis antiqüíssimos que se perquiridos eficientemente possuem até gramofones e retratos de Dalva de Oliveira perdidos por entre os cômodos.
O cheiro de passado, de mofo, de traça e de naftalina invadia absolutamente tudo.
Lá estava dona Loló. Uma aposentada viúva que com seu ordenado de professora mantinha o local. Ela, Zeus, Pablo Neruda e Gretchén – seus gatos. Loló não era uma senhora solitária e não queria ninguém morando com ela. Amava seus gatos e para ela aqueles animais bastavam. Fora do seu lar sim, gostava de sociabilizar-se. E como se sociabilizava!
Existem pessoas – a maioria das pessoas – que se aquietam na velhice. Que diminuem as chamas do fogo que as movem em suas relações amorosas transformando-as em fagulhas, geralmente de amizade. Loló? Passava longe disso, a léguas de distância. O corpo da velha havia sim envelhecido, enrugado, decaído. Isso é a demonstração mais pura de que o tempo é uma fábrica de monstros. Mas, como ela, os homens também envelheciam e muitos – aperplexem agora – estavam interessados em senhouras como ela e não em garotinhas dispendiosas e de difícil controle e manipulação.
Alguns homens procuravam por pessoas como eles para não só trocar lembranças do tão cândido e saudoso passado como também para tirar uma casquinha, uma lasquinha e quem sabe outras coisinhas também.
Foi Loló aprontar-se para o baile da terceira idade. Enquanto ajeitava o cabelo em frente a penteadeira Grétchen se embolava com Pablo Neruda pelo tapete. De longe Zeus observava tudo – compenetrado e de semblante sério – o gato parecia estar perplexo com o que se passava entre seus companheiros de apartamento. Avistava tudo e longe de fazer julgamentos sobre o comportamento alheio deixava-se largado por sobre a poltrona – fechava os olhos e voltava a roncar.
Loló chamava o táxi – sempre o seu Nestor – que ia conversando com a velha até chegar no Clube Paineiras – o clube da cidade – onde descia do carro após ter a porta aberta pelo taxista sempre gentil e cavalheiro. Abria então um sorriso em direção a porta central e tornara-se um cacoete dar uma ajeitada na dentadura antes de adentrar o recinto.
No baile Loló girava mais do que pomba gira. Dançava com todas as dentaduras masculinas do local. Todas. Mas seu preferido era o Alfredo – conhecido pela turma como “bico de papagaio de ouro”.
Aquela noite ela decidira tirar o atraso. Mesmo.Disse para si mesma que estava muito nova para ficar na vontade e livre de qualquer pudor – porque pudor é algo que a sociedade põe na sua cabeça – chamou o Alfredo para dançar. Chamou o Alfredo no pé do ouvido – coisa que fizera arrepiar-se todo. Convidou-o para uma chávena de chá no apartamento. E ele foi.
Chegaram de táxi e ao subir, Alfredo apoderou-se das mãos (cheia de anéis) de Loló. Ela gostou. Loló gostou. Sentaram-se e ligaram a televisão. O objeto ficou tagarelando enquanto a surdez de ambos os impedia de compreender o filme que passava. Preocupavam-se mais em afastar os gatos para a área de serviço. Loló preparou o chá; tomaram muito polidos. De repente as dentaduras se encontraram num sorriso malicioso.
Eleanor e Alfredo atracaram-se violentamente com a prudência que seus corpos pediam. Não esperaram que as palavras correspondentes às preliminares se fizessem ouvidas. Um tilintar de dentaduras, um espanar de poeiras que fez aumentar o cheiro de naftalina e Loló espirrara. Por aqui termina essa narração de intimidades senis.
O vigor da paixão pode ser o mesmo em qualquer tempo da vida, mas é sabido, e bem sabido que a beleza dos corpos não. O nobilíssimo leitor me permita dizer que Alfredo comparecera. E que Loló também fizera a sua parte muito acertadamente. Esqueceram-se dos óculos mas não de como fazer essas coisas...Essas coisas não se esquecem.
Alfredo continuou dançando todas as noites de quinta junto de Loló. Algumas vezes – quando a vontade vinha – tiravam os atrasos juntos, sem pudor algum. E Loló continua girando por todos os meios – por onde sua osteoporose e sua artrite permitam que ela vá. Sua paixão não esmorece, Loló não é uma senhora assanhada. Loló apenas está viva, ela pede para deixar isso bem claro.
O que será que passa pela cabeça de um boi?
Fora surpreendido pela pergunta no meio do dia. Diante de um quadro de fome – por conta do almoço que ainda estava por vir. Estavam passando por um caminho de chão batido e rodeado por novilhos, potros, éguas prenhas, vacas mochas, bois pançudos e garanhões chifrudos.
O que será que passa pela cabeça de um boi? Ao contrário do que o digníssimo leitor possa estar pensando essa não era uma prosa entre dois matutos. Eram dois detentos fugidos. Antes que a aludida pergunta - que consiste no núcleo desse conto – fosse proferida, o interlocutor do que a indagara comentava sobre a beleza do animal: um zebu muito bem dotado que se encontrava à sombra do ipê amarelo.
Pararam os dois com os pés sobre a cerca. Olhando o animal; foi quando veio a pergunta que intitula esse textinho. A palavra proferida não pode ser desdita. E depois que a questão foi abordada os cérebros dos dois facínoras não puderam mais se desvencilhar daquela indagação.
- O que será que passa pela cabeça de um boi?
- Bonito o animal...
- Será que pensa?
-...
-...
- Acho que pensa sim, está olhando pra nós - olha só.
- Olhar mais esquisito, parece até que sabe que estamos sendo procurados...
- É... Estranho mesmo esse bicho, bonito, mas esquisito né?
O boi – diante de sua grande quantidade de arrobas – adiantou-se para perto deles. Os dois não se mexeram esperando ver até onde ia o atrevimento do animal.Foi se aproximando, aproximando, chegou bem pertinho e disse:
- Boniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito heim! Num tom de lorota crítica.
Os larápios saíram em disparada, horrorizados e a questão ficara assim: Os animais não só pensam como falam e atualmente são mais coerentes do que muitos seres humanos. Assim termina uma história bastante mal pensada que esperamos não fique mal falada.
I m mad about the boy
Dormira na sala. Na noite passada o “tum, tum, tum” do vizinho – que inventara de fazer de sua casa um salão de festas – a impedira de ter a tão merecida noite de sono e descanso em seu quarto (pegado ao salão de festas do aludido vizinho).
E durante a noite – enquanto coisas estranhas acontecem no corpo da gente – ela tivera sonhos esquisitos com um menino que agora é seu namorado. Não acordou muito tarde não. Na manhã de domingo em que o céu azul brindava com os sorrisos alegres do derradeiro dia do fim de semana ela se levanta toda amassada. Dormira na sala.
Percebe que o pai já fora para a chácara do amigo, o irmão saíra e a mãe perambulava pela casa atrás de arrumações e coisas afins. Suspira. Não tem fome. Ainda não se sente preparada para o banho. Pensa no jornal. Adora ler jornais de domingo, pensa que tem mais um Caderno pelo qual se apaixonou – “Aliás”, tem motivos ótimos para ler.
Segue em direção à banca de jornal levando consigo o sorriso pela brisa que é tão suave e beija seu rosto – agradece a natureza por essas gentilezas. Enfim compra o periódico.
O jornalista que admira fizera uma reportagem com Cauby - o Sinatra brasileiro. Então ela lembra-se! Lembra-se de que o avô músico havia tocado com a estrela. Precisa encontrar a foto antiga para enviar para o Fred. Procura, ela mais a mãe, em todos os cantinhos da casa. Não acha. Frustra-se:
- Tudo bem, Fred não me conhece, mas sei que não duvidará de mim.
Achou a reportagem muito interessante como já acontecia pela terceira vez. Sentiu que o nariz estava um pouco irritado por ter ido procurar fotos antigas no meio da empoeirada prateleira. Não tem problema. O domingo está muito azul para ser perdido com rinites e sinusites. Envia um e-mail de congratulações. Adora congratular o Fred.