Correndo Pelado
O dia havia nascido estupidamente belo. Os pássaros, as borboletas, o céu, o vento, os cachorros de rua, os carros, os semáforos, funcionava tudo perfeitamente – férias.
Klaus acorda com mais preguiça do que nos outros dias. Tem dificuldade para perceber o dia lindo que se apresenta lá fora porque os olhos não se abrem direito com a quantidade enorme de remela que se formou. Espreguiça o corpaço na cama, enquanto Patchouli (um cocker) pula por cima das cobertas e lambe o seu rosto com tanta veemência que, pronto, foram-se as remelas.
Klaus abre as janelas. A beleza completa do dia lhe bate na face como um tapa.Um tapa desses como numa briga em que duas mulheres rivais rasgam-se por um homem só, que no fim, vai deixa-las por uma mais nova de vinte e cinco anos. Ele sente aquela brisa, olha o céu azul anil as pessoas coloridas lá fora perambulando, exclama:
- Puta que pariu que dia lindo!
Um insight lhe vem à cabeça - está de férias. O dia está lindo; ao olhar um homenzinho de uns cinqüenta anos fazendo cooper lá embaixo sem camisa ele se lembra do que havia lido dias atrás sobre uma mulher nua correndo feito louca pela Augusta. Pensa no que levou uma mulher a correr nua pela rua Augusta. Lembra-se de que a Augusta fica na capital e se lá a mulher teve esse prazer de correr sem roupas e não fora presa, porque ele não poderia fazer o mesmo já que estava no interior? Quem é que iria repreende-lo por isso ali naquela cidadezinha, àquela hora da manhã? Pronto. Decidira-se. Ia fazer cooper pelado.
Escovou os dentes, tomou banho e olhou-se no espelho. Pegou-se com o estúpido pensamento do que iria usar para correr pelado. Ora, para correr pelado você só precisa de duas pernas, um par de tênis e nada mais. E como descer o elevador nu? Aquela hora era hora em que a Martinha costumava perambular pelo saguão e ele não queria que a Martinha o visse nu. Porque ele não poderia mostrar para ela o seu potencial todo. Inclusive, seu potencial, àquela hora da manhã, ficava um pouco prejudicado. Então resolveu que se trocaria no banheiro lá de baixo. Correndo e correndo ninguém iria nem perceber nada.
Enquanto descia pelo elevador levava no rosto um sorrisinho besta de quem se prepara para correr nu. O Sr. Juvenal de cima de seus sessenta anos percebe o tal sorriso no rosto do vizinho de andar:
- Bom dia.
- Bom dia.
- Belo dia não?
- Sim, belo dia (o sorriso aumenta).
- Sabe das últimas?
- Não, quais são?
- O Ronaldinho separou-se daquela moça... Aquela moça... Ticarelli acho que é...
- Cicarelli, seu Juvenal.
- Então, o senhor viu, pode uma coisa dessas?
- Pro senhor vê...
O Sr. Juvenal enquadra o rosto do vizinho e não consegue compreender o que era aquela cara de quem quebrou panela. Não teve mais tempo para papo furado. O térreo estava logo ali.
Klaus salta para fora como uma criança atrás de um balão de gás. Ele está tão irritantemente excitado com o novo projeto de exercitar-se nu que nem percebe como Martinha estava especialmente bela àquela manhã. Não percebe que ela olhou para ele, não percebe que ela não gostou de não ter recebido um bom dia e não percebe que tudo aquilo acabara de fazê-la zangar-se ao invés de indagar-se o porque de tanta animação por parte dele logo assim de manhã. Ela se vai - desdenhando dele – homem bobo.
Então é agora. Nu dentro do banheirinho do Toninho (o porteiro) ele não pode contentar-se de tão animado. Poe-se nu pela calçada. Como um presente do destino a calçada estava deserta. Ele sente a brisa que sempre é mais fresca quando se está assim, como se veio ao mundo, exclama:
- Puta que pariu, eu to pelado!
Começa a sua odisséia. A odisséia de um homem sem roupas, exercitando os músculos na manhã mais bela que a cidade já viu. Klaus decide-se que vai correr ao longo da avenida. Decide que não vai encarar ninguém porque se correr nu já é algo esquisito pacas, imagina correr nu encarando os transeuntes! Tinha que fazer como se fosse a coisa mais natural do mundo (e não era? Nascemos todos pelados!). Desce pela rua quinze e pega a dezesseis. Até agora ninguém o vê. A não ser um cachorrinho que achou muito esquisito aquela coisa pulando em sua direção, mas decidiu-se por não averiguar porque conhecia muito bem um ser humano quando irritado.
Adentrou a avenida. Àquela hora, apesar de interior de São Paulo, havia muitas pessoas saindo para trabalhar. Muitos carros e muitos seres sonolentos, mal humorados, bem humorados, preocupados e despreocupados dentro deles:
- Mãe o que é aquilo ali pelo amor de Deus?
- Aquilo onde?
Irritava-se com a desatenção da mãe, cada vez mais corriqueira com o passar dos anos:
- Pelo amor de Deus mãe, a senhora não está vendo ali ó? Ali!
- Santa Maria Madalena!
O carro passa por Klaus a setenta por hora. Nos outros carros que vem logo atrás, fala-se, sussura-se, arregalam-se olhos, pensa-se:
- Caralho, tem um cara pelado na avenida correndo... Mas olha só que coisa mais ridícula. É a coisa mais ridícula que eu já vi na minha vida! (ouve-se uma gargalhada sombria de dentro do carro). Em outro:
- O Bi!
- Que é?
- Olha Bi! Olha!
Bi entorta o pescoço para ver o moço pelado, não consegue, sente uma pontada no pescoço e fica o resto do dia com torcicolo.
Um jovem rapaz de terno, carro preto do ano, escutando Cold Play em direção ao escritório, por detrás das lentes dos óculos de armação Armani vislumbra algo muito branco, do outro lado da avenida, que vem se movimentando. Percebe que é um homem nu correndo. Não acha a menor graça, olha em volta para ver se pode ser algum tipo de crime, olha para o celular no porta luvas e pensa em ligar para a polícia. Atentado violento ao pudor, poderia ganhar o caso e tal... Era só mais um advogado passando...
Um Pálio vermelho, algumas apostilas de sociologia, tocando Djavan; é um carro de uma quase recém separada. Seis meses sem marido, homem, namorado, go go boy, garoto de programa ou coisa que o valha. Depara-se com aquele homem de meia idade, não muito gordo, simpático, poderia ser até bem sucedido, não parece que tem filhos, correndo nu pela avenida. Averigua o material, gosta do que vê, contorce o pescoço, só mais um pouquinho, só mais um pouquinho... Passou. Pensa:
- Não, não... Esse ai não... Correndo pelado, não deve bater muito bem da cabeça.
Klaus começa a suar um pouco. Não encara ninguém. Continua com sua política. Não encara ninguém, mas sente que os olhares são todos dele. A celebridade da vez. Klaus passa pela porta da padaria.De dentro, dona Maria de setenta anos está saindo com uma baguete e dois litros de leite tipo C. Quando percebe uma bunda passando, uma bundinha branca, olha só que bundinha mais branquinha... Diz:
- Nossa mãe! O Rubens que deveria vir comprar pão e leite viu, o mundo está muito violento!
Comenta com Kika - a neta de dezesseis anos - que está achando divertidíssima aquela cena e não fosse só isso, saca da mochila a câmera digital que acabou de ganhar do Carlão e tira uma foto de um traseiro branco que vai indo ao longe em direção ao horizonte.
Klaus não contava com isso. Ao passar em frente da farmácia, havia se esquecido do cachorro guardião do estabelecimento. Tentou desviar, mas foi em vão. Corria pelado, agora com as mãos por cima dos membros mais desprovidos de proteção enquanto o vira-lata corria atrás se esgoelando em latidos ensurdecedores e nervosos. Quem via a cena não sabia se ria ou se chorava:
- Pega! Pega! Pega o peladão!
Gritou Zé Trovão, o bêbado que ficava sempre em baixo da marquise. Ele havia decidido tentar um cafezinho na padaria, mas fora enxotado pelo Bertolt que não gostava de bêbedos rodeando o estabelecimento. O bêbado, depois da caninha matinal, já estava animado. Correu atrás de Klaus que seguia firme e forte, correndo peladão. Agora eram Klaus, o cão e o bêbado em fila indiana.
Passaram pela igreja evangélica, quando de dentro saiu uma moça de saias. Primeiro o pelado, depois um cão raivoso e depois um bêbado exalando cachaça. Olhou aquilo tudo com olhos muito arregalados, fez o sinal da cruz, benzeu-se três vezes, beijou uma medalhinha de Santo Antonio que trazia no peito- escondida- para o pastor não ver:
A avenida desembocava no parque das flores. Klaus já estava cansado da correria. O cachorro havia desistido da perseguição no segundo quarteirão e o bêbado havia se entretido no botequim atrás da segunda dose do dia.
Pensou então na estratégia de retorno. Mais uma vez o acaso que lhe ajudara na saída o ajudava na chegada (será que pelado todo santo ajuda?). Entrando no parque, o guarda da portaria não vira, porque estava assistindo ao programa da Ana Maria Braga. Chegou no parque e encontrou o Juba fazendo cooper, de walkman – Tupac- e agasalho do Palestra:
- Juba! Juba!
O Juba desliga então a música. Olha bem para o amigo pelado. Dá aquela comparada involuntária. Depois ri compulsivamente enquanto Klaus o leva para detrás da bancada da churrasqueira do quiosque:
- Cara, você está correndo pelado!
- Estou! Agora, sério, me arruma uma maneira de voltar pro AP!
Juba não desapontou o seu parceiro. Ele estava pelado, mas era seu amigo. Pediu pelo celular que a Mariana trouxesse roupas adicionais. Klaus estava realizado, pelado, o dia continuava radiante e ainda havia perspectivas com a Martinha para logo mais à noite...
Eu ia postar um texto aqui, mas deu pau. Não vou postar mais !#**%@¨@¨$!¨%$!@ nenhuma hoje. Obrigada.

Eram cinqüenta pessoas. Todos devidamente uniformizados com suas bandeirolas e bonés. Estrelas no peito. Bótons - moda que pegou depois que o Juca voltou dos EUA de férias. Eram militantes de esquerda. O pessoal da esquerda nervosa do partido. Alguns tinham por bem chamá-la de esquerda furiosa. Cada um já tinha molhado bem a mão antes do trabalho.Lavar a mão antes de comer, lavar a mão antes do trabalho – mamãe havia ensinado:
- Companheiro Juca como foi então de viagem?
- Maravilhoso Marioto, Miami é um luxo.
- E a dona patroa?
- Ah... Mas gostou muito...
Mariana era a filha do Juca. A mais nova da turma – dezoito anos. Muito engajada e boa. Todo mundo achava a filha do Juca boa. O que já estava o deixando um pouco incomodado. Ela estava sempre juntinho do Santo – um militante bonitão e grisalho já aos 28 anos. Uma barbichinha por cima do queixo. Um charme:
- E como que eu faço?Eu tenho que levantar as mãos assim - quando ele entrar?
- Sim (e ia por detrás dela para ensinar a coisa de forma bem feita) você faz assim ó – ta vendo? Com os punhos assim; isso...
E o Juca lá – esperando. E todo mundo esperando que o deputado subisse logo na tribuna. Não podiam esperar tanto tempo assim – aquelas sessões no Congresso começavam a cansar; Eram vinte cinco anos de luta – de guerrilha – queria voltar para casa logo para ver a novela:
- Eu to que não me agüento mais em pé.
- Calma “Delaide” é logo que ele vem.
- Só fico mesmo porque ele é um gatão.
- Não sei porque você fica de esperanças, ele é rico, ta no poder e só pega filé.
- Não me interessa, o problema são essas varises, olha menina!
- Nossa!
A turma da meia idade nunca perdia a chama do engajamento.Mulheres de meia idade, varisentas e de cabelos mal tratados – as melhores para dar escândalos. Marlene aparece com uns sanduíches (sempre a Marlene!) e muito solidária – como haveria de ser entre os “sociais democratas” – vai distribuindo os pãezinhos pela turma. Ouve-se um silêncio. As bocas ocupadas em destrinchar fileiras de carboidratos e o Juca rezando para que o deputado não entrasse justamente naquela hora – estava com medo de engasgar com o miolo do pão como já acontecera outras vezes.
De repente escuta-se um tombo. Era o Edgard (sempre o Edgard!) correndo assustado com o seu atraso:
-Já falou? Já falou?
E o coro:
-Não Edgard...
Edgard era o rapaz fashion da trupe. Possuía trinta e dois tipos de camisetas do Che – todas originais – e uma trazida especialmente da Ilha de Cuba. Havia se atrasado porque ficara especulando com um amigo do clube de investimento, o fechamento da bolsa.
Eis que um burburinho lá embaixo dá o alarde de que iria começar o pronunciamento. Todos se movimentam, alguns olhinhos brilham, outros se sobressaltam, enfim uma balburdia geral como haveria de ser. O deputado entra – inicia o discurso – é aplaudidíssimo por todos eles e vaiado pela grande maioria. E pela primeira vez os fascistas vencem a guerra do achincalhamento com um pequeno gesto – muito sutil e apaixonado: um ovo acerta em cheio as poucas madeixas do parlamentar. A turma do oba oba olha abobalhada. A cena havia sido engraçada e terminam o trabalho com uma dificuldade imensa para segurar a gargalhada. Todos. Nada puderam fazer a não ser voltar para casa.
- Eu quero vê-la nua no meu divã.
- Como assim Padilha?
- Quero que ela se deite, toda, toda! ... Na verdade eu sonhei com isso a noite passada...
O outro tragou o cigarro que fedia um bocado.
- O Padilha vem cá meu amigo, não seria isso uma falta de ética de sua parte?
- Você não sabe de nada Chico...
Ela tem olhos de uva;
São claros, são translúcidos – puros;
Esta sempre de saias
Mas não se vulgariza;
O cabelo antigo de cabaré;
O hálito de menta;
Conta-me a vida em palavras
Intercaladas e fortes;
Tem os joelhos mais lindos que já vi.
- Porque você não tenta mudar a disposição dos móveis? Coloque tudo de tal forma que a visão não alcance os joelhos e que se esquivem dos olhos.
O Padilha ficou um pouco quieto. Taciturno até. Afinal ela era sua paciente e deseja-la nua em seu divã não seria nada bom para seus planos de tornar-se um profissional respeitado.
- Você tem razão – os olhos, o hálito e os joelhos – nada daquilo me pertence.
Chico, o amigo solidário, tocou-lhe os ombros em atitude fraternal enquanto Padilha trazia o rosto caído, quase que chafurdando no copo de wisky.
Saíram do bar e Chico levou o amigo para o consultório, colocou-o sobre o divã e deixou que ele vomitasse palavras duras e ressentidas de amores problemáticos até altas horas de uma boa madrugada.

O sonho de Durval
Durval o cara de pau. Durval o paga pau. Durval o infernal. Assim definiam os amigos de Durval a sua personalidade, irritante e morna em sua quinta essência.
Todo ser humano quando cresce aprende que tem que ter um sonho, ou sonhos – realizáveis ou não – para que a vida não se torne enfadonha por demais.
Pois Durval cresceu e percebera que não possuía sonho algum. Ao contrário do que a psicologia impõe como normas humanas isso não causava ansiedade, stress e nem depressão no nosso amigo.
Ele simplesmente acabara o segundo grau e não optou por fazer faculdade: Faculdade de quê? Para quê? Porquê? Não tinha vocação para nada!
Começou a trabalhar de atendente no armarinho do Sr. Swest e pronto. Sem sonhos, nada de ambição.
Certa vez um amigo chegou para ele e contou uma bonita história com um fundo moral – a moral da história – ele não entendia porque toda história tinha de ter algum fundo moral, alguma explicação para ser escrita, alguma coisa que quisesse dizer uma outra coisa.
Passou a sofrer preconceitos terríveis por não desejar nada da vida. Por achar que a vida por si só bastava. Não que Durval não pensasse, mas pensar já era uma atividade que não necessitava de porquês. Já era um milagre.
Quando se apaixonou pela Marta – todos pensaram que ele mudaria a forma simplista com que encarava as coisas – pois o amor complica tudo. Estar enamorado pela moça não modificou em nada aquele jeito complicado dele de ser simples.
Durval seguia assim seu caminho. Como um títere manipulado por uma mão adormecida. Até o dia que decidiu ter um sonho. Assim, por brincadeira, talvez para chocar um pouco os amigos que tanto o importunavam. Decidiu sonhar – mas não complicou muito não – ia escolher apenas uma coisa só que já bastava.
Passou semanas com os olhos voltados para cima pensando. Pensava na hora de acordar, na hora do almoço, no chuveiro, na casa da Marta – que até estranhou a introspecção do amante.
Certo dia – a epifania brotou naturalmente de uma cena que vira na rua. O sonho estava formalizado em sua mente. Sentiu-se até feliz naquele momento, um pouco mais humano.
Para ele era normal sonhar aquilo. Desejou que o mundo se tornasse um local de pessoas como ele. Esperto o rapaz... Era um sonho irrealizável, mas um sonho.
Quando acordou no outro dia, encontrou o pai sentado no sofá com os pés sobre a mesa e assistindo televisão. Estranhou. Perguntou o porquê daquilo e o pai disse-lhe que não iria mais trabalhar – não tinha mais vontade – nem mais porquês. Assim, durante o dia todo se encontrou com conhecidos que espelhavam em atitudes e palavras uma enorme vontade de não ser, de não fazer, de prosseguir até onde dava, sem indagar porquês. Ficou pasmo. Maravilhado. O sonho – o único que tivera em toda a sua vida havia se realizado! E justo um desejo irrealizável! Pegou gosto pela coisa e começou a sonhar desenfreadamente deixando o pensamento livre, leve, solto, soltinho...
Sonhou tanto que veio a desfalecer. E desfalecido sonhava e sonhava sem parar como um drogado. Quando acordou não viu ninguém. Saiu as ruas – nada. Gritou por Marta. Nem sinal.
Voltou-se para o quarto. Ligou o volume do rádio e dormiu, não teve sonhos.
Os esqueléticos
Ela Maria Helena. Ele Paulo Ricardo. Mas, tire o cavalo da chuva se pensas que Paulo Ricardo, o ex-bonitão do RPM, está envolvido nesta história. Não se trata de fofoca ou jornalismo putrefato. É caso de exatidão, fato ocorrido, marcado; encalacrado na historia do nosso mundo – seja ela enfadonha – ou não.
Haviam se conhecido no tempo da faculdade de onde obtiveram a perene alcunha que havia de os acompanhar até a morte. Qual ser humano passa incólume às alcunhas? Está para nascer! Até mesmo o Messias teve de arcar com as suas.
Entraram no teatro imbuídos de suas camurças. Como fazia frio em São Paulo eles retiraram do armário essas roupas tenebrosas que permeiam muitos casaquinhos e calças. Ela levava o casaquinho, ele a calça. As cores horrendas variavam do tom bege para ela e do marrom para ele.
Não havia como negar o desconforto de vê-los de mãos entrelaçadas. Era um casal que incomodava. Ela tinha um cabelo mal tratado a beça. Muito mesmo.
Um psicólogo erigiria a tese de que ela havia de ter ateado fogo nas madeixas por problemas com o ide, ou quem sabe o ego? Era um cabelo avolumado, seco, em tons avermelhados. De botar medo. Fora a camurça aqui já citada que denegria ainda mais a imagem de quem visse, usava um sapatinho de feira – nada contra as ofertas razoáveis às quais o nosso bolso as vezes se rende – mas a ocasião não comportava aquele atentado aos pés femininos. Findo o inferno de Dante transvestido de Maria Helena nossos olhos passam a perquirir o homem do casal: Paulo Ricardo. A calça marrom ornava um sapatinho surrado – desses que ele usa desde 1976 – juntamente com uma camisa vinho que cheirava forte à fumaça de cigarro. Por cima uma jaqueta de couro – James Jean – e o cabelo rasteiro por sobre a cabeça – larga. Era isso afinal.
Afinal, não era só isso. Não bastasse a inconsistência de suas vestimentas eles não tinham o mínimo aceitável de massa corpórea. Tudo bem, não iria entrar na solidez do caráter e da inteligência dos mocinhos – afinal, quem é que se importa com isso atualmente? A verdade é que tenho de dizer que possuíam uma certa sustância intelectual. O que não vem ao caso nesse pequeno libelo em questão.
Eram magros. Magríssimos. Magérrimos. De dar dó. Senti que alguém no teatro teve o ímpeto de levantar e comprar uma pipoquinha, uma balinha que fosse para ofertar a eles. Outras pessoas – mais benevolentes ainda – ao deparar-se com a dupla - iniciaram uma conversa acalorada e emocionada sobre a subnutrição na África e alguns mal avisados ainda indagavam sobre o andamento do “Fome Zero” do Senhor Lula.
Juntássemos Maria Helena e Paulo Ricardo não obteríamos uns bons cem quilos. Era a genética deles alguém diria. O que se pensava sem o menor pudor era que uma cotovelada ou joelhada deles tinha praticamente o mesmo valor de um punhal mortífero. De que não poderiam ter um cachorrinho de estimação, pois seriam vítimas da ávida propensão que esses bichos sentem por ossos. Não poderiam nem mesmo aproveitar das delícias do coito visto que não possuíam a carne necessária para fazer jus a brincadeira. Um tapa dele nela ou um dela nele destruiria aquele amontoado de ossos. A ossada humana se distinguia, nesses tempos de obesidade compulsória...
A verdade é que ao adentrar a sala de espetáculos não deram a mínima bola para o burburinho que se iniciou. Os dedinhos juntinhos do casal de pombinhos (subnutridos?) não se desenlaçava nunca. Ela fazia uma cara de contentamento por estar ali e ele não fazia conta. Os homens nunca fazem conta de assistir a espetáculos teatrais. Comentou com o marido sobre um casal que estava logo mais ali na frente - e riam, riam não se sabia de quê.
Uma mosquinha contou-me que falavam sobre a cor do cabelo da moça - que parecia a ferrugem do Fusca do Almeida e por fim terminaram falando das orelhas de abano do rapaz que acompanhava a moça – muito engraçadas por sinal. O silêncio se fez dentro da câmara para o início da peça: “A sala dos Horrores”.