Stay... little valentine...
Estava observando-a sentada sobre a cadeira. Feia. Estava gorda, não tinha vaidades, não se cuidava, era desleixada com as roupas. Somente o cabelo conservava bonito. Ela deveria saber que eles tinham um brilho proveniente de uma genética agraciada. Então, conservava-os sempre com um corte e bem penteados. E isso destoava de todo resto.
Já havia perdido a chance de tentar conquistá-la. Ele falhara na última hora! Bem na última hora... De que adiantava também as lamentações? Agora já estava feito, depois de tanto cevar ele acabara botando os pés pelas mãos. Azar o dele diriam os mais prudentes. Apesar de sua incúria com a aparência, ela era um doce. Era meiga e tinha muita inteligência. Com essa forma cativava. Sempre cativara.
No colégio achavam – as meninas – que ela havia feito algum pacto com bruxaria. Justamente pelas formas não muito convencionais de suas carnes em contraposição com a procura por seus beijos.
Reencontraram-se num Café de esquina, muito charmoso, da rua Quatro. Havia se passado um bom tempo desde sua falha. Ela estava mais velha - irremediavelmente charmosa e desleixada. Sabia perfeitamente que seria dificilíssimo ela o reconhecesse. Passou então por trás do garçom utilizando-se de sua figura hercúlea como anteparo. Deixou-se sentar atrás da mesa. Observou a silhueta – sentiu o coração pulsar. O cabelo continuava o mesmo – um negro brilhante – com um corte por cima dos ombros, moderno.
Sentiu uma leve pressão nas pernas. Sabia que estava perdendo um pouco o controle. Essas coisas não são explicadas. Ninguém tem a fórmula para rotular – a fórmula do desejo – a fórmula da paixão.
Percebeu que ela estava lendo. Esticou o pescoço sem disfarçar. O garçom notara a cena. Ele recuou. Estava tão sensível com sua própria insignificância diante de seu sentimento que temeu uma ressalva por parte dele. Ela pareceu notar. Virou-se um pouquinho para a esquerda. Ele sentiu o seu perfume – por Deus do céu era um perfume muito agradável. Enlouqueceu diante do truque do olfato - que agora – como inimigo – o colocava a mercê de sua inglória paixão fulminante que voltava.
Teve um ímpeto de deixar logo o Café. Antes que ela se virasse e talvez o reconhecesse. Antes que ela se virasse e talvez não o reconhecesse. Teve medo. Sentiu dores estomacais e teve um pequeno colapso nervoso. Nada que o cigarro que acendeu não detivesse. Tragou extasiado o pequeno objeto. Como se a tragada pudesse devolver-lhe o ar que faltava. Tragou até ferir a alma. Fechou os olhos e deteve-se por um instante segurando a testa com a mão e o cigarro.
De repente sentiu um leve toque nos ombros. Era ela. Havia levantando e o viu todo abalado. Ela – raramente benevolente – teve por ímpeto perguntar se estava se sentindo mal. Quando ao vê-lo percebeu que ele não era um desconhecido qualquer e teve um minúsculo espasmo que a fez retroceder alguns centímetros.
Olharem-se por séculos, em segundos. Olharam-se como se os olhares – os mais fenomenais de toda a história – nada fossem. Ela recuperou-se muito breve, pois sempre sabia como se sair bem de qualquer situação. Perguntou se estava tudo bem, a quanto tempo, ficou um pouco sem graça. Ele já havia perdido seu coração que havia saído pela boca em direção a algum lugar desconhecido.
Olharam-se novamente, diferente. Talvez estivessem mais maduros. Ele queria avançar-lhe nas carnes. Puxar-lhe o pescoço impiedosamente para perto dos lábios. Dizer a ela tudo que sempre havia ensaiado na frente do espelho. Uma cena certamente interessante. Ele era bonito, um homem grisalho. Um homem muito visado por mulheres. Diplomado na arte da sedução e apaixonado por uma mulher do século XVI, gorda e com uma idade certamente avançada. O lugar apresentava meninas com cabelos esticados escravas de grifes famosas e rapazes com os corpos malhados na academia em detrimento de umas boas horas de leitura.
Os olhos dele brilhavam tanto que ela percebeu. Sorriu. Ele sorriu. Nesse momento o mundo havia acabado. Não havia mais Café, nem atendentes, nem balcão. Não havia mais sociedade, nem pudores, nem palavras.
Ele não sabe o que aconteceu e estava diante do carro dela. Abriu a porta, cavalheiro que era. Foi beijar-lhe a face para se despedir. Resvalou levemente os lábios nos dela. Ele jura que foi sem querer. Ela jura que não teve a intenção. Diante das juras e da vontade imensa de se perder que os invadia, ele pôde beijá-la. Beijou-a com força. Machucou-a. Ela consentiu com um quase sonoro grunhido. Beijou-a.
Toda a sua vida – todas as horas – todas as experiências foram esquecidas. Estava falido diante do turbilhão de prazeres que aquilo significava. Depois de séculos os lábios se deixaram. Ela sorriu. Ele sorriu. Despediram-se.
O cadarço do soldado
- Seu guarda.
- O que é? Falou bravio.
- É seu cardaço.
- Como é que é?
- Car- da - ço.
- Ta tirando com a minha cara safadeza? Pegou o pobre diabo pelo colarinho.
- Não! Não! Não! Olhe para baixo.
- Está me dando ordens? Não acredito... Levantou o corpinho mirradinho e surrado do desempregado acima do quepe.
- Chefia o senhor me perdoa, valha minha Nossa Senhora de Pirapora que por tudo que é mais sagrado que eu só tava falando do cardaço de vossa senhoria.
- Que raio é esse negócio de cardaço ô seu pobreza?
- É esse trequinho que o senhor usa para amarrar a botina aí do senhor.
O polícia olha para a botina desamarrada.
- Ah... Hahahahaha ri descompassadamente e violentamente enquanto a pobre criatura abre um sorriso de alívio através dos dentes enegrecidos e tortos da sua boca.
- Quer dizer que isso aqui é o meu “cardaço”?
- É, sim senhor. Diz muito prontamente quase batendo continência.
- Hum... O policial faz um olhar imaculado.
- O senhor gostaria de que eu lustrasse as butinas de vossa senhoria?
- Não. A bem da verdade eu gostaria muito é que você me deixasse em paz.
- Tudo bem senhor doutô.
O polícia desdobra de dentro da mala preta um pano de prato que faz cheirar no nariz ranhento do coisinha uma salivante torta de frango.
- Senhor Polícia!
- Mas novamente? Você não vê que está me importunando? Não vê? Não vê?
- Sabe o que é? É que a barriga ta vazia tem um tempo que não como, que debaixo do morro lá onde eu moro a nega lá não quer mais que eu pise lá.
- Sei.
- Então, to tentando na obra do Sr. Pio um trabalhinho muito satisfeito, mas que ele falou que não tem vaga pra eu porque já tem muito dos trabalhadores trabalhando lá e...
- Não vou te dar a minha torta. Procure ajuda na prefeitura.
- Prefetura?
- Pre-fei-tu-ra.
- O seu doutor pelo amor de Nossa Senhora do Guadalupe, pelo Santo Barnabé do Canhanhã, me ajuda com um pedaço dessa torta delícia que o senhor tem aí, que eu não como to com a barriga vazia.
- Eu vou prender o senhor.
- Comé? Falou afinando a voz e enxugando o nariz com as mãos sujas.
- É isso mesmo. Na cadeia o senhor vai aprender a não importunar mais os homens de bem. E lá também, bem preso, garanto que você vai ter bastante tempo para conversar com os outros presos e a comida, além de tudo, vai ser do seu agrado.
- É mesmo doutô?
- É.
O polícia levou o picaresco para a delegacia. Enquadrou-o em um artigo qualquer e deixou ele lá. Um mês depois ele foi transferido para outra cadeia – uma da capital – por importunar demasiado os policiais com um tal de cardaço que insistia em estar desamarrado nas botinas oficiais.

A LIBÉLULA E O LIBELO
A libélula é um bicho esquisito. Quis Deus que ela tivesse asinhas ligeiras que de zumzumzum mantém em equilíbrio um parco corpinho em forma cilíndrica. Dá-lhe assim esse aspecto pitoresco – um presente da natureza aos amantes dos burlescos animais.
Quis a libélula pregar uma peça num dourado. Um peixe que entende de viver num lago sobre o qual ela sobrevoa todas as manhãs de quinta-feira. Matriculou-se num curso de redação. Aprendeu a redigir e articulou um libelo* digno das façanhas protagonizadas pelos antagônicos Wainer e Lacerda nos tempos de Getúlio – momentos genialmente bélicos.
Intitulou “A Fragata” fazendo alusão aos velozes navios de guerra e colocando-se no comando de um que se depara com o pobre peixe no lago verde. No texto, a pequena voadora, achincalha a moral do nadador argumentando que o mesmo detinha como únicas e exclusivas, as aptidões de cheirar mal e nadar de forma banal, sem classe; rechaçou ao máximo a condição do ser de escamas fazendo transcender uma raiva inexplicável que trouxe inúmeros comentários ao antes silencioso hábitat em que viviam.
Suspeitara-se de que todo aquele despeito fosse fruto de rejeição. A libélula, coitada, apaixonara-se pelo peixe, belo, e não fora correspondida. Ela no ar, ele na água.
Algum tempo após os burbúrios causados pelo escrito – num dia de sol em que lá estava o peixe a passear pelas águas – a pobrezinha deixou-se cair com tenacidade sobre as margens turvas do lago despedaçando as asinhas e a pouca massa que lhe formava o corpinho.
A equipe de resgate encontrou uma carta de despedida que enfatizava com primor, nas últimas linhas, o incontido amor que sempre nutrira pelo dourado, seu adorado.
GLOSSÁRIO:
Libelo: Escrito de caráter satírico ou difamatório.
DECISÃO PEREMPTÓRIA REDUNDANTE
-Tome uma decisão Rogério, tome uma decisão!!!
-Mas o que? O que?
-O que o que seu besta? Vá lá, fale com ela pô, fala qualquer besteira pra ela, fala que é um doce, um pitél.
-O que é um pitél?
-O mesmo que um doce, meu avô costumava dizer isso...
-Ah sim, ela é modernosa, não vai entender esses caracteres antigos.
-Caracteres?
-É.
-O que é isso?
-É coisa de computador...
-Ah...
-Não sei o que falo.
-Ai meu pai!
-Eu sou tímido pô!
-Bebe uma antes.
-Uma?
-Mais que uma pode dar problema.
-Da boa?
-É.
-Mas como faço para reparar o bafo?
-Ai – não pensei nisso.
-Pois é.
-Deixe-me pensar – minha tia faz umas balas de gengibre...
Acho que seria uma boa.
-É.
-Trago para você amanhã, você vai ao Ditão – toma a branquinha – pega o gengibre – masca e depois vai lá e faça o que tem que fazer.
-Mas e se der branco?
-Você é pessimista mesmo né? Deus do céu! Tome uma decisão peremptória redundante!!!
-Heim???