O homem que fedia

 

Estava procurando uma coisa barata para comprar no shopping. Porque andar atrás das baratas é sempre melhor do que das caras. Eu andava num ritmo lento, um ritmo Dorival Caymmi em busca de uma preciosidade que se possa adquirir por poucos tostões, como por exemplo escutar a Nana assim de graça, num quiosque na praia; na Bahia.

Escarafunchei por todas as tocas mercantilistas apelidadas de lojas: magazines, conveniências, livrarias, docerias... Todos os tipos - lá estava eu dentro, com cara de fiscal de prefeitura, meus olhinhos de lince, meu olfato de rato, meu tato de deficiente visual – sem visão alguma que alcançasse um horizonte para aportar – um simples objeto barato para presentear.

Eis que saio da sapataria e fico barrada no corredor. Entre o quiosque de centro de shopping e a loja. Creio que fosse uma família (conjunto de seres humanos). Uma matilha, um enxame, um cortiço, uma colméia. Não, lá estava eu barrada por uma família. Perquiri  que seriam três filhos pequenos (carregando seus sorvetes grandes) uma avó, uma tia, e um pai. Um homem, o único, o patriarca, o provedor, chefiava o bando ficando na retaguarda da tropa.

Tentei passar com jeitinho – mas nunca sou afortunada nessas tentativas. Quando saio a passeio eu fico nessa paranóia. Parece que todas as pessoas querem passar pelo mesmo espaço que o meu e dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, já dizia a grande ciência planetária que nos move.

Que fosse apenas uma barreira momentaneamente instransponível era aceitável. Mas a verdade era que a barreira, em si, fedia. Fedia como um porco – um porco de roça desses que chafurdam na lama. Um porco que acabara de tomar pinga. Um porco que não tem vergonha de ligar o chuveiro do banheiro  somente no sábado e olhe lá. E eu lá, minha gente, eu lá sendo impedida de seguir livre o meu caminho em busca de uma bobeira qualquer que me servisse de presente - que deixasse o aniversariante quiçá um pouco feliz. Porque de felicidade vivemos em busca nessa vida.

O homem fedia muito. De moça calma, serena, boa pessoa e muito equilibrada passei pela alquimia da alma que me fez irritadiça, mal educada, impaciente e porque não dizer grossa? Mas vejam bem, porque eu deveria ter de esperar que o ser fedorento tivesse a boa vontade de retirar seu corpo putrefato de minha frente e da frente de minhas narinas?

Minha alma em protesto esbarrou por entre eles todos. Bufei no final da travessia e acabei a aventura no shopping carregando duas sacolinhas repletas de sabonetes do Boticário® para o aniversariante.

 

 

 

                                                                  Ficar conchinha

 

Ficava tudo tão quieto. Era um pouco estranha estar presa. Dentro de um corpo jovem. Estando com vontade de sentir-se introspectiva – velha. Velha dentro de um corpo jovem. Alguma coisa saíra errada, mas nada estava errado.

Era só um desejo de ficar conchinha. Ficar conchinha, fechadinha, quietinha, dobrada por sobre si mesma numa noite de luar, de estrelas, de sábado à noite.

Tão jovem e tão desajuizada... coitada! Onde é que já se viu ficar em casa num dia desses? Desse jeito não arruma namorado! E não arruma mesmo. Arruma o que quiser, quando quiser, na hora que quiser, no lugar que  escolher.

Ela está somente esperando o tempo certo chegar como a árvore só amadurece o fruto na hora que ele tem que ficar bom. Deixa cair depois, se estourar no chão quando não presta mais. Ela sabe que se enrabichar por alguém é sofrer depois que amadurece, que os dois se cansam. E o amor cai no chão se espatifando e explodindo a poupa já meio avermelhada, escura, por conta da podridão.

Ela só quer ficar conchinha hoje... procurando no silêncio o som do vasto oceano, que está tão solitário quanto ela nesse exato momento. Pensa.

 

Que Carpe Diem que nada, aproveite o seu CABUM!!!

 

Ter o controle da situação é tão reconfortante. O poder de governar a si mesmo só se valoriza quando se perde. E ela o perdera aquela tarde. Por completo. A menina que sempre gostou da morte, que sabia que a morte nada mais era do que viver com mais recursos obteve no paliativo do tombo, a sensação de não mais estar, não mais ser, não mais comandar o corpo. Sustentação? Você sabe quanto pesa o seu corpo? Talvez você descubra o dia em que ele cair com a cabeça em alguma quina enquanto você de fora, fica olhando, meio abobalhada, até voltar a ele.

Por cima da maca a dor era intensa. Nossa, a dor era muito intensa. O que é isso? Que dor é essa? A face era um carrossel de rugas que se permutava em fechar os olhos com força, contorcer a boca, encher as bochechas. Porque aquela dor? Uma dor que parece sem porquê. Maldita. Após o esforço pelo bem da saúde: o alívio... Melhor do que um orgasmo... Aliviar-se... É como diria um grande sábio: Quando se está apertado, quem é que pensa em fazer sexo? Quem pensa no prazer máximo do coito quando se está precisando liberar resquícios rejeitados pelo corpo?

O alívio é o grande elixir da vida.O alivio é muito melhor que o gozo. Mas não será o gozo justamente um alívio? Sim. Podemos colocar assim.

Precisava levantar-se da maca, agora que já estava aliviada.Pronto, já havia acabado a sessão de tortura. Como uma pluma dirigiu-se ao banheiro, colocar as roupas. Tudo aconteceu naquele banheiro. O encontro com o deixar de ser por um segundo.

A pressão que minutos antes, era declarada como ótima: “seu quadro clínico é bonzinho... bonzinho...” agora estava abaixo de zero (esclarecendo que nunca compreendera a contagem que os médicos fazem da pressão). O mal estar. Um grande mal, como se já não bastasse o sofrimento sobre a maca, padeceu sobre a pobre criatura. Quando sua pressão está baixa, você realmente morre. Ela chamou por alguém: fulana!!! Foi então que o tempo se perdeu. Ela passou a viver por cinco minutos na Terra e uma eternidade no etéreo. Enquanto a fulana corria em seu encontro, um pouco apreensiva, ela foi sentindo as seguintes sensações: imagine estar apertando a mão de Adolf Hitler banhada em sangue, horrível, qualquer coisa assim. Perder os sentidos.... Para onde estão me levando?... Foi quando seu pensamento ficou dando voltas em situações cotidianas, essas situações que nos passam a todo o momento pela cabeça. Ela foi pensando, pensando, pensando, quando se deu conta estava com o terceiro olho (região entre os dois olhos) na quina da parede. Acordou. Ou melhor, voltara a sustentar o corpo que agora percebia caído no chão, perdido, todo indefeso, solto, arrefecido, mas não humilhado. Voltou um pouco a si, ainda vivendo a sensação indizivelmente contundente da pressão baixa. O socorro chegou. Levantaram-na, falavam, falavam, mas ela já começava a maravilhar-se com o acontecido. Café, sal, empurra a cabeça para baixo. O tempo parara para ela. O cabum do desmaio foi a epifania da vez. Percebera que por um minuto (estabeleceu cinco, mas não fora tanto) ela havia desmaiado. Ficado fora da situação real que a transformava num ego que tem seu papel na sociedade. Ficara somente mente. Seus pensamentos. Seria seu espírito? Ela não quis entrar nesses detalhes. Não ia obter respostas a perguntas tão difusas. Pronto. Um desmaio. O primeiro que vivera parcialmente consciente. Ela não recomenda, contou-me outro dia. Mas, adorou a experiência. É preciso viver essas situações para dar valor a carcaça que se carrega. Agora, encontra-se em casa, com três pedras de gelo envoltas em um pano de prato no meio da testa. Está contente por saber que sobreviveu e que sobreviverá sempre, mesmo diante de situações perversas como as que a pressão do corpo humano pode levar a uma alma que só está tentando dar o melhor de si. Aproveite o seu cabum!

A festa italiana

A festa italiana. Em uma festa italiana você imagina que vai encontrar o que? Comida! Muita comida! Comida boa! Massas! Tudo! Uma delícia que me piace molto!

Lá estava eu perambulando mais meu divino amigo Dante por entre as pernas das pessoas, balões mágicos de hélio, canções italianas belíssimas, performances cantando a tarantella; Muito vinho! Muita cantoria! Muita gente bonita, bem vestida. Vejo ao lado de meu amigo, um casal maravilhoso: declaro aqui, chamou-me muita atenção, um belo ragazzo de olhos azuis cristalinos, alto, cabelo bem negro e uma moça linda ao seu lado. Fiquei olhando mais para ele, ela me olhou, olhei mais para ele ainda, bonitão.

Continuamos, Dante e eu, andando pela festa. Barraquinhas, artesanato, verde, vermelho e branco por todo lugar. Anunciam o show de algum Giordano... Pensei em Giordano Bruno.

Descobri há poucos dias que eu gostaria de ter sido Giordano Bruno. Continuamos andando, mas as vibrações dos cheiros açoitavam nossas pobres narinas. Paramos diante de umas seis senhoras e um senhor com uma viola na mão. Cantavam músicas antigas, do tempo de titia avó. Que cazzo! Chorei por dentro, formou-se um nó na minha garganta (que, diga-se de passagem, não me impediria de comer muito logo após). Senhorinhas todas performáticas, vestidas com roupas da década de vinte, cantando alegremente canções da época em que foram lindas jovens com histórias maravilhosas a serem vividas pela frente. Seus corpos estavam se decompondo, mas suas almas, quanta luz! Quanta alegria! Afinal, aquilo era uma festa italiana!

Rodamos feitos piões por entre as barraquinhas enfeitadas. Eu queria um balão, comentei isso com Dante, mas carregar balões de gás quando se tem mais de vinte anos, fica estranho para a pessoa. Não sou o tipo de pessoa que faz coisas estranhas, apenas quero. Bonecos de fantoche (também quis muito um) por toda parte: que beleza!

Procuramos a barraca da pizza, sim. A burocracia do sentar-se, pedir e esperar não foi tão enfadonha. A mesa estava a nossa espera e logo estávamos diante de oito pedaços bem feitos de pizza calabresa, servidos em pratos de papelão e faquinhas e garfinhos de plástico: quebrei todos e comi com guardanapo.

Tudo bem, a festa, a comida, o estômago, a conversa, a cerveja, os sorrisos! O prazer da mesa, o comer bem: êxtase. Nem tanto. Nem tanto assim.

Começam a nos visitar peregrinos de uma realidade que desconheço. Desconheço porque não a vivo, sei que existe, mas não a vivo. Os primeiros peregrinos vieram em forma de crianças. Uma menina com meias coloridas nas perninhas e cabelo liso e longo como moldura do rosto de anjinho. Ela queria a latinha: “Moça, falou quase sussurrando, a latinha está vazia?”. Depois um menino, devia ter seis anos ou sete: “Quer?” Vendia uns adesivos. Não quisemos. Mais dois peregrinos, duas crianças vieram nos pedir latinhas (mas ainda estavam cheias!). Enquanto dirijo para a boca aqueles pedaços divinos de pizza, olho para o lado esquerdo, perto do chão. Uma mulher negra, gorda, descabelada, esta fuçando no lixo. Ela precisa de latinhas!

Achei que iria comer somente dois pedaços. Senti que poderia comer mais. Então, uma mulher de uns quarenta anos, loira, de olhos preciosamente azuis, com uma criança no colo, seus olhos sem brilho e o nariz sujo nos pede: “Vocês podem nos dar um pedaço dessa pizza?” Movimentos rápidos me fazem conseguir um outro prato e em segundos dois pedaços da pizza estavam nas mãos da mulher. Ela levou junto o meu coração, a minha cidadania, a minha dignidade humana e mais um pouco. Nos olham curiosos das outras mesas. Dante se mostra solícito. Mas, perdemos a fome.

 

O vespertino

 

A tarde caía num marasmo mole. Um calor envolvia o ar, sufocava-o, mas a vida corria solta, pessoas perambulavam atrás de seus afazeres.

 

Tudo se passou ao lado da linha do trem. A linha férrea 31, por onde um pedaço mínimo do futuro do Brasil passava toda manhã e tarde, fazendo estardalhaço e projetando trincas nas casas vizinhas.

 

Aquela paz, naquela tarde. Por ela passava eu, diante de meus sessenta e cinco anos, não esperando mais nada que pudesse fazer mudar o meu rumo. Seguia em ritmo lento até a casa de Maria. Eu ia em busca de um pouco do conforto de Maria. De suas suaves palavras, seu abraço reconfortante diante de sua face serena e de suas mãos macias.

 

Uma criança cruzou o meu caminho. Eu já havia visto essa criança inúmeras vezes, era moradora do bairro. Seu pai a acompanhava de longe trazendo um volume por baixo da camisa. Eu observei aquela família, observei o volume por baixo da camisa: parecia uma sacolinha, talvez contivesse frutas, pensei.

Papai! Papai! É ele papai, o moço que roubou hoje de manhã!

Há trinta metros e alguns centímetros dali um homenzarrão, cheio de músculos, pedalava uma bicicletinha, ia ligeiro, a cabeça um pouco abaixada. Ao ouvir o estrondo da voz infantil, projetou-se para frente do guidão colocando força colossal nas pernas.

 

Um tiro seco. Depois outro. O volume na calça do pai não eram frutas; um revólver se escondia por debaixo das calças e depois não consegui ver mais nada até que me recompusesse e percebesse que tudo era real.

 

O homem ficou estendido no chão. Moribundo. Tombou próximo da igreja batista. Os fiéis de lá saíram assustados, caras lívidas, ainda no ar o cheiro de pólvora. Por perto, com o barulho, escutou-se o arrastar de pés, eram cristãos católicos que se aproximavam, saindo da missa. Terços em suas mãos. Uma mãe sobrepôs as mãos sobre o rosto da filha.

 

 

A segunda, depois da primeira.

Estava muito cansada de tudo. Quem não estaria cansada da Segunda Guerra Mundial, nos seus últimos dias? Não que os primeiros dias já não trouxessem um cansaço, dor nos ossos, no corpo todo, a pressão de estar de um lado da trincheira sendo a caça para caçadores ávidos por sangue.

Havia terminado. Os aliados hasteando o estandarte da vitória. Enfim, a paz, uma paz mal feita – envergonhada – cheirando sangue velho e óleo diesel, mas a paz.

Eu queria ver Mussolini e olhar bem em seus olhos. Tentar entender porque sua alma tinha tanta doença. Eu o encontrei. Era 29 de abril de 1945.

Não estava sozinho. Estavam Clara Petacci, sua amante. Archille Starace, secretário do partido fascista. Alessandro Pavolini, o ministro da cultura. Quando meus olhos depararam com a cena eu tive uma certeza – jamais esqueceria.

 

Pensei que eu tivesse caleidoscópios em lugar de olhos. Talvez já houvesse chorado tanto que agora, ao ver a cena distorcida, meus olhos úmidos distorcessem a imagem. Demorei um certo tempo para interagir com a cena real. Ele, o antes ditador e senhor todo poderoso, sua amante, seus aliados, em corpos pendurados e o dele, do grande líder, tumefacto. Não veria mais seus olhos.

Não havia rosto; o conhecia por nome e nunca havia visto em foto. Agora não veria mais. Os corpos estavam desfigurados pela empáfia italiana. Os fascistas agora eram antifascismo. O corpo, o rosto estava escarrado. Seus corpos num açougue de almas.

Um velho posto de gasolina na Piazza Loreto, a última moradia do grande ditador. Imaginei como as coisas terminam para os maus. Logo me veio a cabeça Jesus Cristo pregado na cruz e segundo os evangelhos “perdoai-os porque não sabem o que fazem”. Veio-me a cabeça a missão dele. Porque ele havia sido bom e morrera como um grande ditador da segunda guerra mundial. O que teria sido mais indolor: o fuzilamento ou a crucificação?

 

Resolvi deixar o velho posto. Agora não precisava mais entender a doença de Mussolini. Cruzei a estrada e preferi perscrutar a santidade do bom e velho homem de Israel.

 

(Créditos ao possivelmente grande – Joel Silveira).




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