Base.
Estávamos numa base sobre o mar. Era ali que vivíamos. Vivíamos bem. Uma vida cheia de cotidiano, de dia-a-dia, com um pouco de maresia a mais, logicamente, pela proximidade com o oceano. Lembro-me de me encontrar com muitas pessoas.
O dia estava frio, estava chuvoso. Ao olhar além do horizonte por cima da base metálica eu vislumbrei – muito longe – como se meus olhos fossem telescópios – uma onda. A maior que poderia existir. Ao vê-la, minha alma encheu-se de medo, um desespero de quem não poderia fugir e teria de esperar pelo pior.
Quando voltei meu rosto para a comunidade da base, todos já estavam sabendo. A notícia já havia sido dada pelos meios de comunicação. Isso tudo acontecia rapidamente, sem haver tempo para a contagem cronológica simples dos fatos.
O tumulto formou-se normalmente; muito organizadamente. A ambigüidade de um tumulto organizado me fez pensar que tudo era sonho. Pois eu conseguia ter a noção certa de quando estava sendo vítima de sonhos. Sonhos não, pesadelos. Consegui manter-me calma como geralmente acontece. Apenas um pouco abalada por saber que aquela onda nos atingiria em cerca de horas. Tentava imaginar como seria morrer afogada.
A base alargou-se e tive acesso a outras áreas. Formava-se um crepúsculo no céu. Ela vinha se aproximando, conseguíamos ver ao longe uma parede de água escura. Nossa perdição.
Apareceram botes, não me lembro se motorizados, muitos, mas todos já estavam sendo “comprados”. Depois, eu via pessoas que iriam se salvar porque o dinheiro delas havia comprado vôos em aviões de todas as classes.
Procurei por meus pais, minha família. Encontrei meu pai e minha mãe indiferentes quanto a minha situação. Meus irmãos estavam lá, eu os vi de relance. Meus pais haviam conseguido o aluguel de um bote para eles e meus irmãos. Eu supliquei a meu pai um lugar, ele virou o rosto – queria que tudo terminasse logo – não havia lugar para mim.
O frio estava ficando intenso. Então me juntei a outras pessoas que também teriam o mesmo fim. Não possuíamos outro meio de nos salvar a não ser entregarmo-nos a ela de corpo e alma. Pedindo aos céus para que o encontro com a fúria das águas nos fosse doce... pacífico... Sabíamos que não era essa a realidade mais plausível. Porém, acreditar era tudo que nos cabia.
Quando o fim estava aproximando-se, encontrei-me com uma amiga – que sempre encontro em sonhos. Até tranqüilizei-me naquele momento. Ela me abraçou e começamos a nos desculpar e falar bobeiras, pois a morte era certa. Pensei nos meus pais que haviam me deserdado. Não senti raiva e nem me senti excluída. Talvez isso fosse a realidade que nos apresentam os sonhos – a família é apenas um núcleo que acumula seres afins para desenvolvimento. Não são seres iguais. Não há relação de sangue.
Encontrei-me por fim, com uma famosa cantora. Alegrei-me mais ainda – uma artista famosa iria morrer também – sentíamos-nos mais empolgados com o fim – a morbidez dessa realidade parecia não nos importunar.
A única coisa que posso contar sobre o desfecho dessa história é que a onda não veio, a grande onda. Sobrou-se uma pequena onda que atingiu a base por baixo e não causou o menor abalo. A verdadeira onda havia sido uma criação mental. Uma criação do medo. O medo havia formado aquele monstro, muito real. Acordei.
(Conto baseado em fatos reais, digo, em sonhos reais).
