Testemunho de um adepto

 

Compreendi seus olhos mortos aquela manhã. Era uma santa disfarçada. E santos são assim, tem os olhos mortos porque na verdade não são vivos como nós.

Compreendi também como lidar com ela. Eu não devia nunca dizer o que ela deveria fazer, apenas deixar que seus movimentos lentos das mãos dessem a direção.

Confesso que tive imensa dificuldade na realização dessa tarefa. Porque eu sendo homem jamais poderia ser dirigido por uma mulher. Isso não era concebível. Aprendi que com ela eu teria de agir de outra maneira.

Sentamos as cinco da tarde num café maravilhoso na praça mais bela da cidade. Seu rosto era de um pálido glacial, uma maravilha de se ver. Quis agarrar suas mãozinhas frescas com minhas garras riscadas e rudes, mas não o fiz.

Respeita-la era uma obrigação. Quando percebi que somente a via porque era um venerável, quis mais, quis obtê-la inteiramente para mim.

Esse meu erro me fez passar duas eternidades no inferno. Amando-a assim, sem nunca possuir minha, criei o mais vis dos sentimentos – o egoísmo. Detive-me por um tempo procurando suicidar-me inúmeras vezes. Consegui que meu corpo se tornasse um punhado de excremento que ninguém queria limpar.

Sentados as cinco da tarde naquele café. Procurei fechar meus olhos mesmo mantendo-os abertos e não pensar em nada. Ela me olhava com dignidade, mas sempre os olhos mortos. Eu tentei não pensar em nada, mas pensei. Ela não sorriu.

Esperando ansiosamente algum fruto de sua boca pequena e meiga, tilintava os dedos na pequena mesa rotunda. Uma brisa sussurrava que nunca havia batido naquela terra e fez com que os cabelos de um castanho estelar sobrevoassem sobre os ombros. Diante disso ela baixou os olhos em direção à chávena de chá.

Trouxe algum medo dentro de mim a sua distância. A perderia novamente?

 

 

By crazy spirit

O caminho das pedras

 

A pedra acertou a minha cabeça em cheio, na testa, como se eu fosse um desses alvos pendurados nas paredes dos pubs nórdicos.

O menino achou tão linda a ave no Chapéu-de-Sol que quis chamar a sua atenção; viu a pedra, olhando-a, não teve dúvidas, agarrou-a com entusiasmo e a catapultou com toda a sua ânsia e vontade.

A mulher cansada do dia estafante no trabalho chutava alguns pedregulhos meditativa; ao passar em frente ao banco da praça, observou um que era maior do que os outros, esse, ela chutou com gosto e a pedra rolou e postou-se aos pés de um menino de boné amarelo.

O marceneiro estava desencontrado com a vida, a mulher que outrora fora a companheira de todas as horas, fugira sem nem ao menos deixar um bilhete molhado com lágrimas; sentou-se no banco da praça e passou a brincar com os pés acertando em cheio um pedregulho que rolou um pouco mais além.

O bebê brincava na frente do prédio, a babá que estava pensativa (pensava no encontro de logo mais tardinha) segurou a criança com um braço e no outro tentava falar ao celular, nem percebeu que ao invés de chupar a chupeta a criança chupava uma o pedregulho que  havia pego pelo chão do prédio. Baba e bebe dirigiram-se para fora do prédio e detiveram-se em frente ao banco da pracinha. Enquanto a moça tagarelava ao telefone a criança estava prestes a engolir a pedra. A trágica digestão só não ocorreu porque antes do pequeno degustar o distinto mineral, trocou-o por um carrinho vermelho de plástico esquecido e deixou a pedrinha aos pés do banco. A babá tirou o bebê da praça, fazia muito Sol.

A construção civil para o Paraíba era o maior infortúnio. Sonhava com a carreira de cantor de moda sertaneja. Enquanto o sucesso não vinha, continuava ali, na obra, levando e trazendo pedregulhos para a reforma do prédio como haveria de ser o destino de um interiorano sem estudo como ele.

 Homem rico, riquíssimo. Dono de uma empresa de mineração conhecidíssima em toda grande São Paulo tendo que se prestar a um papelão desses: carregar pedregulho na sua magnífica caminhonete do ano. O suor só não escorria do rosto porque, obviamente, ele possuía ar-condicionado. O Paraíba, seu funcionário, descarregou todo o pedregulho dentro da área do prédio e foi acertar o pedido com o zelador enquanto o rico observava os fundilhos de uma babá muito jeitosa que negligente do bebe que lhe competia cuidar, divertia-se muito com seu aparelho celular.

“A man in a baby blue jacket with a black tie…”

 

A formiga não sabe, mas ela vai ser esmagada. O pé ligado à perna caminha em direção à esquina. Os músculos impávidos no rosto chupado. A cor marrom. Os olhos negros de um profundo umbral de vivências. Esmaga o pequenino inseto deixando uma patinha incólume. De que servirá aquela pequena pata que ficou perfeita diante do corpo estraçalhado que mal fará falta ao formigueiro?

O corpo minguado vestido com uma certa classe. Veste o blazer azul bebê que não comprou, mas ganhou há cinco anos. Veio embrulhado numa caixa de papelão verde musgo. Uma fita vermelha fazia duas voltas em todas as direções. Um cartão com um impresso de Netuno – o oitavo planeta em ordem de afastamento do Sol.  Naquela ocasião ele sentou-se diante do pacote. Fechou os olhos em atitude meditativa. Quando abriu os olhos o pacote ainda estava lá. Levou os lábios até o narguile, deu três tragadas exatas. Ficou com o sabor acre na boca pelo tempo em que desenlaçava a fita rubra. Vagaroso e astuto como o mais vigilante dos animais. Apesar disso, mantinha o olhar meigo, as pálpebras caídas e um profundo sentimento de paz dentro do coração.

Retirou a tampa e vislumbrou o blazer de corte perfeito. A cor o fez relembrar o passado. O baleiro que fazia venda nos arredores de sua aldeia quando criança. Ele usava algo muito parecido. Sentiu a boca encher-se de saliva, as papilas gustativas agora eram todas doces. Doces tempos os que faziam da correria, do fuzuê e das molecagens os únicos motivos da vida. Fechou o pacote e deitou a cabeça no sofá enquanto uma das vistas virava-se para a janela e aquela parca luz do sol invadia as pupilas.

Uma gravata preta por sobre a camisa branca. O homem continuava o seu caminho em passos lentos e espaçados. Perfeitamente sincronizados com o horário, com o barulho dos carros, com o chiar das formigas, o vôo dos pássaros e o tilintar da pulseira falsa no punho, presente de sua avó.

Os olhos como os de uma águia tinham a visão plena. Parou em frente a uma lanchonete. Checou o horário do relógio, manteve-se paciente e olhou para os lados de forma involuntária.

Entrou no estabelecimento que estava cheio de crianças e adolescentes – todos da escola municipal da cidade. Sentou-se em uma mesa de dois lugares. Os bancos de cimento, uma decoração moderna em tons amarelados. A algazarra no local era muito grande. Os pequenos acabavam de sair do colégio e ali era o ponto de encontro em que os sonhos e as coisas mais importantes eram discutidas.

Demorou a ser atendido. Observou todos os garotos e garotas, um por um. Abriu um sorriso no rosto que chegou a iluminar o pequeno universo local em que estava sentado. Algumas crianças brincavam coisas de criança, antigas brincadeiras como ele fazia com a irmã, Amélie.

Uma moça de dentes muito bonitos se aproximou depositando por sobre a mesa o cardápio. Ele o afastou e pediu por uma garrafa d’água. Ela anotou o pedido. Retirou-se em direção ao balcão e ele fez o mesmo. Vagarosamente.

Em Londres, às vinte horas, num plantão de notícias a Senhora Desirré enquanto penteava os pelos macios da gata, Pandora, sentia-se um pouco perplexa com o que escutava: “atentado em uma lanchonete de Kazkva mata mais de cinqüenta adolescentes e crianças”. Desirré desliga o aparelho, desce pelo elevador do prédio, chama o táxi para visitar Amélie e sua neta tão querida, Majorie.

 

 

Anticotidiano

 

Algumas coisas não acontecem todo dia. Assim, quando acontecem, são acompanhadas de uma mística, mesmo que não passe de pura invenção da mente humana, ou não; explico: não é incoerência, é o bom e velho antagonismo das coisas, Deus nos livre do pensamento único que emburrece.

Todo dia eu acordo na mesma hora, minha mãe é meu despertador. Faço as mesmas coisas até a hora de sentar-me no carro e conduzi-lo até o trabalho. Paro no semáforo. Normal, como todos os dias. Mas, como é importante viver, vejam: hoje não foi um dia normal.

 

O que vou contar durou no máximo uns vinte segundos. O que demonstra como a importância do tempo é relativa. Não se atribui mais ou menos valor pela duração, mas sim, pela intensidade.

Não sei se isso é privilégio das cidades do interior, eu creio que não. E creio nisso pelo fato de que alguns acontecimentos são gratificações da natureza para conosco – todos podem receber.

Um pássaro raro, multicolorido: azul, amarelo, preto e vermelho (existiriam outras cores?) pousou por sobre o capô do carro. Levei meus olhos até aquele pequeno ser de intensa beleza. O pequenino perambulou por sobre a lataria em direção ao espelho retrovisor. Interessado talvez pela luminosidade da tinta metálica verde escura. Será que pensava estar explorando uma mata virgem? O que levou aquela ave até ali? Diante da minha vista maravilhada, privilegiada por enxergar a perfeição de Deus naquele pequeno formato, tive o coração contraído. Minha boca abriu-se deveras: boca aberta.

O pequeno pousou os pezinhos por sobre o retrovisor, girou a cabeça para a direita, depois esquerda e então, pasma fiquei, pousou por sobre a base do vidro que se encontrava fechado. Queria entrar! Ele queria entrar? Eu não acredito nisso, justamente porque as aves são ariscas, ainda mais essas difíceis de se ver cotidianamente. Aquela pequena ave batia o biquinho no vidro, afinal, não ensinaram a ela que os vidros são intransponíveis, ficou tão perplexa quanto eu.

O belo é uma dádiva dos céus, a natureza se encarrega de nos sensibilizar com suas particularidades artísticas. Levei vagarosamente o braço esquerdo para baixo. Tinha a intenção de apertar o botão e abrir o vidro para que pudesse ficar mais a vontade com o pequenino. Que nada, meu privilégio acabara por ali. O pássaro voou rapidamente e não pude acompanhar seu destinatário. Nem mesmo sei se houve um. Ainda me pergunto se vivi uma cena real. O sinal verde me fez seguir em frente, alguns quilômetros boquiaberta e extremamente feliz.

 

 

 

A menininha no ônibus

Sentada no ônibus pensava.

Será que todos se sentem tão estranhos quanto eu?

Sei lá, se Deus é perfeito deve saber o que está fazendo, mas parece que não caibo direito dentro do corpo que ele escolheu para mim.

Deve ser por isso o desconforto.

 

Não bastasse eu, ainda as sensações fisiológicas.

Não bastassem as sensações fisiológicas, o frio e o calor.

Não bastasse isso, eu inventaria alguma coisa que não bastasse.

Pois minha essência é criticar o que não faço e o que nunca farei.

A essência que possuímos é detestar tudo que não nos cabe.

 

Esse ônibus cheira gente.

Tem muita gente por aqui.

Como a gente é banal.

Existem tantas.

Será que só o dinheiro as diferencia?

 

Não sei.

Algumas pessoas são mais agradáveis que as outras.

Porque será isso? A robótica humana por puro capricho divino?

As vezes me pego sentindo nojo dessa lógica imbecil que as pessoas insistem em não perceber.

Crêem no Darwinismo, mas não acreditam em outras vidas.

Quanta burrice, eu penso.

 

Tem coisas que são tão óbvias para mim.

Tem coisas que só para mim parecem ter sido escritas.

Tem coisas que me fazem ver o quanto sou superior.

Tem coisas que eu falo que realmente demonstram a minha estupidez.

Eu odeio mesmo é essa coisa de literatura poética, dos filósofos ateus, das teorias materialistas, dos ateus em geral, dos fanáticos religiosos, dos estúpidos e das enfermarias repletas de doentes que são justamente aquelas que se situam fora dos hospitais.

 

 

Estupro

Enquanto trazia para mais perto de si a casa da amiga – aproximava-se - escutou gritos secos, sussurros falidos, por detrás do beco logo mais próximo ao poste. Ficou aterrorizada porque pareciam ser condicionados à puxadas violentas de braços de quem faz muita força para largar-se ou para não se deixar largar.

Ficou com medo. O medo esse ser tão transparente. Esse ser tão comum nos dias em que vivemos. Ficou com medo de ajudar, de pedir ajuda, de gritar por socorro. Ao invés disso, sentiu-se retraída, retalhada. Tentou lembrar-se de como se escrevia estupro em inglês. Ela havia ouvido uma vez numa música de rock a palavra, que logo identificou pelo dicionário inglês- inglês que costumava usar quando mais adolescente.

Apertou o passo. Sabia que não era super-heroína, heroína, para salvar a vida de quem quer que fosse. Não tinha nada que ver com aquilo. Cada um é responsável pela violência que cativas. Talvez, a menina, a raptada, estivesse mesmo era procurando por isso, afinal, Deus sabe o que faz.

Quando chegou na casa da amiga, estava pálida. Logo sua querida Doroti percebeu algo de errado:

- Não, não Doroti, nada de errado, tudo bem.

Abriram seus cadernos por sobre a escrivaninha de madeira e puseram-se por cima dos livros, de um jeito despudorado. Logo estavam conversando sobre as banalidades do mundo fútil feminino enquanto outras garotas eram violentadas na rua.

 

Noites de Terror

 

Nunca havia notado. Aquela cabeça grande, aquela cabeçorra. De repente teve um súbito surto de náuseas. Como a mãe conseguira parir aquela melancia?

Coloque a melancia no pescoço se quer chamar atenção. Deus achou por bem criar aquela cabeça. Os olhos esbugalhados meio caídos. Era uma coisa medonha. Uma coisa feia de se ver.

E ela vivia com aquilo há quinze anos. Mas nunca reparara na cabeça! Perguntou ao seu íntimo se seria pelo fato do bolso ter sido tão sempre maior do que a cabeça? Os outros diziam que ela havia casado por interesses escusos financeiros. Sempre odiara todos por isso. É que talvez, nunca houvesse reparado naquilo.

Estava de costas para ela, dormindo. O corpo tão proporcional, membros, pernas e braços...

Imaginou quando ele reclamava das dores na cabeça e ela dizia que tomasse uma aspirina. Quantas aspirinas seriam realmente necessárias para acalentar aquela estrutura gigante por sobre o seu pescoço? Ele poderia ser cinqüenta por cento dos lucros da Bayer. Afinal, se é Bayer é bom.

Virou-se para o lado dela na cama. Santa Maria Madalena! Fechou os olhos para não ver. Não queria vir de encontro com a realidade de que estava casada com um ser esquisito, estapafúrdio!

Ah... Nosferatu seria mais agradável abraçado a ela naquela cama. Estava exagerando? Mas era real! O monumento fazia afundar o travesseiro de uma forma que assustava.

Balbuciou qualquer coisa. A coisa falava enquanto dormia. “Ainda mais essa!” Pensou.O que é que ela tinha feito da vida? Casada com uma tonelada de massa encefálica que nem fazia jus àquele tamanho todo – era medíocre em muitas de suas colocações.

Teve uma depressãozinha com todas aquelas considerações que duraram cerca de meia hora.

O tempo passava - não ficava imune ao poder do sono. Aos poucos foi fechando as pestanas, lutando para não adormecer e ser atacada por aquela cabeça. Foi quando ele acordou. Olhou-a. Ela vencida preferiu adormecer com seus pensamentos e Morfeu a vencera mesmo diante dos olhos que agora a observavam.

“Nossa... essa mulher tem um nariz muito grande, será que o pessoal do kriket ria por causa disso ontem a tarde?”

Sim caro leitor. Agora a cabeça gigante acordara assustada com o nariz desproporcional que em sua frente jazia em berço esplendido.

 

Laranjas

 

O sentido da vida, the meaning of life, Raca !

Porque tem que haver um sentido para seguir se todos os sentidos acabam não fazendo sentido algum? É tudo suposição. Como vou acreditar com todas as minhas forças na ciência se depois de um tempo o comprovado até pode vir a ser desaprovado?

Afinal, a ciência não falha?

Vou ficar sentado aqui nesse banco bem ao meio. Nem muito à esquerda e nem muito à direita. Tomar posições na vida é burrice. Pois com que certeza podemos nos apoiar em nossas certezas? Será que ninguém percebe que o sentido das coisas é efêmero e dispersivo como o pó? Será que somente eu consigo ser equilibrado e perspicaz o suficiente que perceba a inconsistência de nossas certezas?

Certa vez, um “mestre” disse que meu absenteísmo ideológico era preguiça de pensar. Falei “Raca!” Quem pode me dizer o que é e o que não é? Quem nesse mundo?

Sempre odiei os mágicos. São apenas tristes ilusionistas, seres que querem nos iludir com uma capacidade de manipular objetos e fazer aparecer coisas que já existiam, mas estavam muito bem escondidas. Até que se prove o contrário todos os detentores de opiniões certas são como os mágicos. Seres imbecis de cartola tentando tirar coelhos de onde coelhos não nascem. Porque não tiram então um filhote de cartola do ventre da mãe cartola? Fica explícita a inconsistência desses atores medíocres.

A única certeza que existe para um sentido na vida é a existência de Deus. Esse aí está na cara que existe. E como é longa a fila dos abrutalhados que nele não acreditam. Existe alguma coisa no mundo mais evidente do que a existência de Deus? Mostre-me. A laranja, essa aí sobre a mesa. Tem consistência, gosto, cheiro. Mas num segundo eu a engulo e pronto, ela não existe mais e talvez nunca tenha existido. Foi só uma criação da minha mente para poder saciar minha fome. A laranja não tem vida em si mesma. Não existe. Não me importam as laranjas.

Deus sim. Esse sim. Eu não vejo, eu não cheiro, não sinto, não toco. Mas é tão claro que existe que todos os dias ele me da provas disso. E eu não tenho como provar aos outros disso. Apenas eu tenho visto Deus por séculos e séculos. Ele fala comigo todos os dias. Raca!  Tolos os que riem de mim achando que sou um doido que acredito em Deus, mas não creio nas laranjas! Raca! É evidente. Deus é algo que não se pode tocar, nem sentir, nem ver e a laranja é justamente o contrário. Porque vou acreditar nela que nada me faz pensar? Deus me faz pensar, e enquanto eu estiver apto a pensar em Deus ele vai existir. A laranja? Em dois minutos deixa de existir como laranja e vira suco alimentar.

Raca! O Sentido da vida. Não tem sentido nenhum. A vida é uma glória sem sentido e Deus está no meio disso tudo! Ah! Inconsistentes que acreditam em laranjas! Deus tenha piedade de vós!

Quarta-feira: esperando no trabalho

 

As palmeiras ao vento chiavam. Num movimento mole, lânguido, assim preguiçoso surgiam majestosas suas folhas, diante de sua autoridade outorgada pela altura, de perder de vista. Tudo isso por causa do vento o qual teimou em cessar assim que passei a observá-las com atenção. Tornaram-se quietas e então passaram a me observar, pois agora era eu quem me mexia. Sentia-me incomodada com as dores lombares de horas sentadas na poltrona do carro esperando que o serviço terminasse.

Esperar a vez não é tarefa aprazível para quem padece de ansiedade. Ao menos, vítima não era dos anseolíticos. Apesar de minha estúpida maneira de agir priorizando o futuro eu ainda conseguia manter-me sã. Remédios no meu estilo de vida provinham quase todos da natureza.

A espera interminável fazia o piar dos pássaros mais interessante. O que estariam eles falando? Devido à ênfase nos repiques e trilados no pio do pintassilgo, supus que falava com eloqüência querendo expressar indignação ou talvez inteligência. Como não havia revide bem poderia ser um monólogo de um pássaro louco. Como também poderiam ser as últimas palavras proferidas pelo pássaro carrasco diante de um pequeno bicudo que calado assentia em sua sentença.

Ah... As divagações a que nos levam o ócio... Um ócio involuntário, era preciso esperar a vez, mas – um ócio.

Procurei concentrar-me em um algo mais. Escolhi vespas. Estava próxima de uma coroa de cristo florida repleta delas e moscas, abelhas por entre outros insetos comuns. Beijavam as miúdas flores vermelhas na boca. Depois saiam muito extasiadinhas e logo caíam em um outro beijo, não muito demorado. Sumiram rápido dali, insetos volúveis com seus beijos melados de pólen. Ficaram as minúsculas flores vermelhas estáticas, já beijadas, enfeitando o jardim frontal da casa.

O silêncio pairou novamente enquanto o tempo não parava, mas eu, parada.Concentrei no inspirar e expirar o ar que me divertiu com um pequeno apitar que saía do nariz. Devia ser

pelo desvio de septo. Apitava pelo nariz como uma pequena locomotiva imaginária. Achei bobo tudo aquilo. Já era menina grande. Será que ainda era tempo de produzir pequenos silvos nasais e divertir-se com isso?

Meu aniversário estava chegando. O tempo, o tempo na ampulheta. Quanto mais de areia será que havia na ampulheta? Achei melhor não comentar.

Passei a pensar no inferno astral que dizem preceder o aniversário. Quem inventou tal história? Os dias são os mesmos o ano todo. É tudo sempre igual.Acho que a mente inventa as coisas. Inventei que não queria inferno astral e pronto. Se pudessem me ofertar livros eu agradeceria.

Uma borboleta amarela... duas borboletas amarelas (agora, eu observava borboletas amarelas). Tão parecidas, acho que eram borboletas gêmeas. Quis nomeá-las. Brindá-las com um pouco de civilidade e individualizá-las com nomes de batismo: mas seriam fêmeas ou machos? Procurei pensar em algo unissex. Não encontrei nome bom para elas. Também já haviam sumido. Borboletas... tão volúveis quanto as vespas. Saem beijando tudo feito insanas num desvario desmedido. Deixe elas. Que eu não tenho asas e fico aqui. Consumindo meu ar, parada, sentada, dentro de um automóvel de quinta, na quarta.

Para terminar a infinda espera, o acaso me brinda com a singela cena. Em frente a uma casa de drinks, essas casas... casas de massagem, creio que o leitor me compreenderá. Parados, um jovem casal. Uma cadelinha e um pequeno macho tentam encaixar-se, inspirados talvez pela fachada da boate, querendo participar da sociedade humana. Tentaram, mas, a natureza díspar das criaturinhas não permitiu completasse a situação. Largaram-se como se nada houvesse acontecido, como se não tivessem compromisso algum. Espera aí, estariam os caninos transformando-se em seres humanos?

Parei de pensar, o carro saiu em disparada.

Absenteísmo

 

O chefe abrutalhado chega na repartição. Diante de seu á-bê-cê abusado constata com abalo que o absenteísmo na seção é deveras abundante.

 

Abundava o abandono do serviço. Abrangia o absurdo! Um abuso!

 

No auge de seu absolutismo contraiu o abdômen como efeito abrasivo para a sua raiva absorta. Nunca dera aquela abertura! Sempre fora bom, abonado. E como lhe respondiam?  Com aquela aberração! Abjurou os funcionários! Precisou abanar-se. Pensar como um abade abnegado cultivando um abacateiro...

 

Abiscoitou um abricó na mesa do Abílio... Pensou. Iria mandar todos aqueles abobalhados para o abate! Sim! Era o que faria. Abismado, abarrotava alguns bilhetes. Absteve-se de absolver. “Aqueles aborígines!” proferiu.

 

Um funcionário abelhudo viu tudo e ficou abatido com o abissal aborrecimento do chefe e preferiu abdicar daquele trabalho. Os outros abarcaram no aboio. Abraçaram a causa.

O ambiente ficou abiótico. Aborrecido. Abafadiço. Abreviaram aquele dia abrupto e foram atrás de um abrigo abastecido de muito absinto para diminuir o abalo.

 

Devaneios de Senhor Ringo

 

A teoria do senhor Ringo era a de que um povo se conhece pela boca. A qualidade dos dentes é uma tabela. O hálito, as gengivas, a língua. O que sai, o que entra. O que o povo come ou deixa de comer. O que o povo fala ou deixa de falar. Está tudo lá. Na parte inferior do nariz e superior do queixo; a boca.

 

Aliás, senhor Ringo estendia a sua teoria à toda humanidade. Certa vez, ousou imaginar um mundo sem bocas. Não haveriam mais discursos populistas, bate-bocas, não mais se discutiria relacionamento e seria o fim das piadas sem graça. Ninguém mais padeceria por intoxicação alimentar, seria o fim da bebedeira.

 

Foi quando, senhor Ringo imaginou que seria o fim do beijo na boca. Vacilou. Como faria para demonstrar sua paixão incontida por Rosa Maria? Não, não. Definitivamente um mundo sem bocas seria inviável.

 

Então imaginou infindáveis passeatas pró-bocas. Cartazes e faixas “Pelo direito de vociferar!” ou “Quem tem boca vai a Roma!”. Surgiram movimentos como o MPB (movimento pró-boca) e o extremista MSB (movimento dos sem boca). Talvez o único efeito positivo encontrado nesse tipo de manifestação fosse o silêncio e uma certa ordem. Ouviria-se um zumzumzum e o arrastar de sapatos. Muito civilizado, pensou.

Antonio Carlos.. Io te voglio... tanto...

A vizinha chega pra outra vizinha e diz:

- Nossa, mas pra que você quer aprender italiano?

- É pra falar com o Antonio Carlos na cama.

- Nossa! com o Antonio Carlos? Na cama?

 

Fala num tom de desdém gratuito fazendo a vizinha olhar bem para a cara dela com as mãos na cintura e...

 

- É, o Antonio Carlos sim, meu marido, que, que tem?

-Nossa... nada... Mas e aí, ele vai fazer também?

-Não, ele tava comentando da Sofia Loren outro dia comigo né? Que ele acha ela uma beldade e tal, então resolvi fazer essa surprezinha pra ele.

-A vá filha! Veja só, você tem noção de quem seja Sofia Loren? E você com esse corpinho de Wilza Carla?; filha... Não orna né?

-Escuta aqui o...

- Ta, ta, desculpa, mas porquê você não tenta um inglesinho básico mesmo? Não é mais light não?

- O Antonio Carlos é antiimperialista, ele não gosta.

- Ah sim... E do Lula ele gosta?

- Gosta.

- Gosta!?!

- Gosta.

-Depois de tudo?!?!

-É.

-Hum... Boa aula de italiano pra você então querida.

-Obrigada fofa.

-Até.

-Ciao, bacios.

 

Fernando, eu, o beagle e a natureza.

 

 

Procurei afastar-me de Fernando por vinte dias. Mas, só consegui dez dias no emprego o que, descontado o final de semana, tornavam-se oito dias.

Trouxe comigo o pequeno beagle que ainda era um bebê, mas fazia uma sujeira de gente grande. Não quis mais ninguém. Eram somente eu, a casa, o beagle e a natureza resplandecente do lugar. Indizível, inenarrável e porque não me empapuçar com as palavras e soltar um incognoscível?

 

O ambiente perfeito para me desfazer da urucubaca que houvera sido meus dias ao lado do indigente humano - o Fernando.

 

No primeiro dia fez um Sol tão maravilhoso, que ao acordar bem cedo só para ter o prazer de fazer um café, num sítio, cedo e deleitar-me com a brisa fresca do alvorecer, soltei algumas parcas lágrimas de emoção. Achei até que estava, finalmente, me tornando uma mulher mais sensível ou porque não espiritualizada? Ao consultar o calendário atrás da porta da cozinha pude perceber que se tratava apenas de tensão pré-menstrual e que dali a uma semana eu estaria inchada, chata e dolorida. Merda - pensei.

 

No segundo dia peguei o beagle e fomos caçar borboletas. Perdi-me por entre os pastos correndo feito uma doida desvairada. A sensação era provavelmente a mesma que a das borboletas. Não fosse o buraco que fez meu pé torcer-se e ter meu corpo jogado a léguas de distância caindo como uma bomba no Japão, poderia mesmo ter sido uma caçada perfeita. O beagle me acompanhava sempre a uma distância mínima de quinze metros e a cada topada minha parecia ver em seu rostinho angelical uma repreensão do tipo “O que será que essa estúpida quer fazer?”

 

O terceiro dia praticamente inexistiu. A chuva torrencial forçou me ao ostracismo e fiquei a tarde toda limpando os coliformes fecais do pequeno animal. Fui limpar a casa, tive encontros e desilusões homéricas dentro daquele lar. A cada teia, a cada barata, a cada piolho de cobra, mais eu percebia que Fernando – de alguma forma – não queria deixar a minha vida.

 

O quarto dia deu uma animada. Fui jogar-me no lago. Na verdade eu havia saído para andar de caiaque até descobrir – no meio do lago – que alguma coisa estava vazando. Caí no lago, exímia nadadora (Graças a Deus) consegui chegar a outra margem depois de muita lama. Achei por bem pensar que havia saído da cama para me banhar no lago. Meu cabelo estava terrivelmente prejudicado e ainda assim achei que estava no lucro. Existe algo mais mimoso do que o contato com a natureza?

 

No quinto dia alguma coisa aconteceu, passei o dia inteiro amuada enquanto o beagle continuava ali, me olhando, “o que será que ela quer agora? Biscrock?”. Meu amigo beagle, a natureza, a casa um pouco mais limpa e ele lá. Fernando lá na minha cabeça. Comecei a preocupar-me com a urucubaca daquele safado. Será que pegava mesmo? Decidi que no sexto dia eu sairia pelo campo para colher ervas e fazer um banho “ante-encosto” para mim.

 

O sexto dia só não foi perfeito porque na noite anterior eu houvera sido vítima de um grilo. Um grilo fazendo uma sinfonia. Ele e uma cigarra esganiçada se uniram para tornar o barulho do silêncio algo raro e ensurdecedor. Não padeci. Fui forte, fui corajosa, acordei no sexto dia acabada, mas vencida, jamais. Passei então a procurar ervas pelo campo. Com um chapéu de palha, o cabelo preso, um vestido florido... Praticamente July Andrews e suas crianças... No meu caso, o meu beagle.

 

Sétimo dia, descansar? Passei-o inteirinho cuidando da desinteria do beagle e de preparar um chá forte contra vodu e congêneres. Peguei a foto do desalmado e coloquei lá no meio da panela. Parecia até um caldeirão. Empolgada resolvi imitar risada de bruxa, com o estrondo que causei na primeira levada o pobre do cão começou a latir assustadíssimo e escondeu-se num lugar que só fui descobrir no oitavo dia.

 

Oitavo dia, último dia. Limpo tudo – novamente – arrumo, para mostrar meu alto grau de civilidade. O beagle já está melhor, coloquei uma roupinha nele. Andei percebendo, sabe que ele está até parecendo comigo? Coitado...

Não me agüento e pego o celular na bolsa. Oito chamadas do Fernando! Safado...

Ligo o carro, e dirijo para a casa... Não sem antes fazer um pit stop no Fernando... Afinal, o beagle é dele.

PLEASE TAKE YOUR SIT BELTS.

 

 

Então, havia chegado o momento da partida. Para mim de nada adiantavam as lágrimas das pessoas que ficavam para trás. Havia cortado o meu cabelo curtinho e me matado várias vezes a cada fio de cabelo que ficava pelo chão. Talvez a mulher os transformasse numa peruca.

 

Fiquei com a idéia da peruca na cabeça até que meu pai avisou que tínhamos ainda trinta minutos de espera até a primeira chamada do vôo. Imaginei que quem viesse a utilizar a peruca com meus fios de cabelo poderia adquirir os meus “poderes”. Achei engraçado imaginar alguém se tornando eu mesma pela aquisição de fios de cabelo. “Seria bem interessante”.

 

Num processo desses eu poderia também ser um outro alguém por usar desse alguém um chumaço de seus cabelos. Winona Ryder, Uma Thurman, me imaginei na pele delas.

 

Minha mãe me observava triste por entre as cadeiras do aeroporto. É que meus pais já vislumbravam a minha ausência. Um pouco destemperada não me preocupei se poderia ter alguma crise existencial enquanto sozinha em um outro país. Na verdade nada mais importava. Eu já havia passado tanto tempo num marasmo indefinido que para mim, a morte, ou a esquizofrenia, seriam experiências muito proveitosas. Sem preconceitos.

 

Detive-me com meus próprios dedos. Olhava para eles como se agora fossem as únicas peças de mim mesma a estar comigo. Vinte dedos, dez nas mãos e dez nos pés. Mexia-os lentamente procurando acalmar a angustia da espera. Porque sempre odiei qualquer tipo de espera. E sempre soube que deveria refrear esses ódios. São prova de incompetência. E não gosto de ser incompetente. Estava me tornando por comodismo, por mimetismo, por inércia e por plasmose.




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